O próximo artigo inédito será publicado no Domingo (dia 15).
11 de Novembro de 2009
1 de Novembro de 2009
Inéditos (XXII/2009)
Os que dormem na Casa do Senhor
«(…) munido com todos os sacramentos faleceu da vida presente aos 22 dias do mês de Abril de 1822, morrendo de Malina e foi sepultado na Capela de Recarei (…)»
Alvo de vários estudos e motivo de publicações de grande interesse histórico e social, o ritual da morte, desde os derradeiros actos sacramentais até ao depósito do corpo na última morada, transporta-nos pelas ancestrais tradições dos povos, dando-nos a conhecer essa vertente da ligação milenar do Homem à “outra vida”, pela via da fé, como recusa de um negro fim perpétuo, de um grande “nada”, além da simples condição humana de existir.
No cristianismo, um dos actos inerentes ao post-mortem, pelo menos desde a Idade Média, era a inumação dos fiéis defuntos na cripta ou no adro dos centros de culto. Era ali mesmo que os fiéis exigiam estar, adormecidos no “sono eterno”, na “Casa do Senhor”, correspondendo o local à necessidade espiritual de estar mais próximo de Deus. Repousariam assim sob abrigo do sacrossanto edifício que durante as suas vidas testemunhara o manifestar da sua Fé, o sussurrar das suas preces e onde haviam recebido as graças sacramentais.
Até que a tradição fosse interrompida pelo cabralismo já no séc. XIX, também a pequena capela “de Nossa Senhora do Bom Despacho, Santa Águeda e Santa Apolónia”, no lugar da Costa de Recarei, à época ainda sufragânea ou anexa à paróquia de S. Pedro de Sobreira, acolheu no seu solo as famílias que tinham tido a possibilidade económica de adquirir, dentro da nave, um espaço para jazigo de sua casa.
Fruto da nossa[1] recolha nos livros paroquiais de S. Pedro da Sobreira, publicaremos em três partes, a lista de alguns dos recaredenses inumados dentro da capela de Recarei, durante a primeira metade do séc. XIX. Importa ressalvar que não é nosso objectivo fazer uma transcrição exaustiva dos assentos – o que por ventura seria maçador para o leitor destas crónicas – mas antes reproduzir uma pequena amostragem, seleccionando escritos que revelem algum tipo de informação de carácter, a nosso ver, relevante.
Para uma melhor compreensão dos assentos e das informações que os párocos neles faziam constar, será proveitoso deitar mão, antes de mais, de um breve glossário de termos (práticas) relacionados com todo este ritual da morte.
Obrada, ou oblata – Oferecimento. “Obradar um defunto significa oferecer alguma coisa ao altar e aos sacerdotes para que roguem a Deus por sua alma.”[2] Referindo-se de uma maneira geral à antiga tradição do concelho, a obra “Paredes - Jóia do Sousa” indica que “a obrada consistia numa vela de quarta, que era acompanhada por uma quantia de dinheiro, que podia ir até 100$000 (conforme as possibilidades da família) e que era colocada, num envelope, preso à vela, na Capela-Mor da Igreja Paroquial.”[3]
Obradório – Acto de obradar, geralmente no primeiro domingo depois do funeral.
Encomendação ou Encomendamento – Oração ou conjunto de preces exequiais, antigamente recitadas em latim por um número variável de sacerdotes com o objectivo de encomendar a alma do defunto a Deus. Esse número de padres variava de acordo com as possibilidades económicas da família.
Rasa (ou raza) – Medida antiga que equivalia a aproximadamente um alqueire.
Extrema-unção – O último dos sete sacramentos do catolicismo, recebido pelos fiéis às portas da passagem para a desejada vida eterna em Cristo.
Viático – É a última comunhão, a chamada “provisão para o caminho”, para a “via” do reino dos Céus.
Ofícios de defuntos – “Ou simplesmente ofícios, preces pelo eterno descanso das almas dos mortos.”[4]
Comecemos então a transcrever, com ligeiras correcções nossas e grafia actualizada, alguns dos assentos de óbito dos que “dormem na Casa do Senhor”:
Aos doze dias do mês de Novembro de 1804 faleceu da vida presente António, solteiro, homem preto, escravo de António Coelho da Silva do lugar da Costa de Recarei, com todos os sacramentos, de velho, que tinha 95 anos, foi sepultado na Capela de Recarei. Dia era ut supra[5]. O reitor João António de Castro e Vasconcelos.
Aos treze dias do mês de Abril de 1809 faleceu da vida presente Manuel filho de Caetano da Rocha e Maria da Rocha, do lugar do Cabido de Recarei, morto pelos Franceses[6] com um tiro. Foi sepultado em Santa Águeda de Recarei desta freguesia de 18 anos de idade.[7]
Aos treze dias do mês de Outubro de 1810, faleceu da vida presente Caetano José da Rocha Pinto, do lugar do Outeiro de Recarei, só com o sacramento da Extrema Unção, de 80 anos de idade e de [nome da causa de morte, ou doença, ininteligível] foi enterrado na Capela de Recarei por provisão que tinha de Sua Excelência e deu de corpo presente oito obradas conforme o uso de sua casa. Dia era ut supra. O reitor João António de Castro e Vasconcelos.
Aos vinte e quatro dias do mês de Outubro do ano de 1813, faleceu da vida presente, Anna Barbosa, mulher de Manuel Nogueira do Covo da Costa de Recarei, com todos os sacramentos, de 50 anos de idade pouco mais ou menos, de doença [ininteligível], foi sepultada na sua campa que tem na Capela de Santa Águeda desta freguesia de que fiz este assento. Dia era ut supra. O pároco Manuel da Cunha Leão.
Maria da Cunha, mulher de Manuel da Rocha Oliveira do lugar de Recarei desta freguesia, faleceu da vida presente com sacramento da Extrema Unção aos treze dias do mês de Setembro do ano de 1816, morreu de uma apoplexia, e foi sepultada na sua campa na Capela de Santa Águeda, de 50 anos de idade. Dia era ut supra de que fiz este assento. O reitor Manuel da Cunha Leão.
Florêncio, solteiro, filho de António Coelho da Silva e Custódia Barbosa do lugar de Recarei desta freguesia, faleceu da vida presente com todos os sacramentos, foi sepultado na Capela de Recarei tendo de idade 17 anos. Dia era ut supra, o reitor Manuel da Cunha Leão.
Perpétua da Silva, viúva que ficou do Alferes Manuel da Rocha Oliveira do lugar de Recarei desta freguesia, faleceu da vida presente com o Sacramento da Extrema Unção por causa de uma apoplexia, aos onze dias do mês de Agosto do ano de 1820, foi sepultada na sua campa sita na Capela de Recarei. Seu filho Manuel de Oliveira satisfez o seu bem d’alma segundo o costume de sua casa e freguesia, tendo de idade 87 anos. Dia era ut supra de que fiz este assento. O reitor Manuel da Cunha Leão.
Pe. Custódio José da Silva Leal, presbítero do lugar de Recarei, munido com todos os sacramentos faleceu da vida presente aos 22 dias do mês de Abril de 1822, morrendo de Malina[8] e foi sepultado na Capela de Recarei tendo de idade 65 anos e fez testamento dia era ut supra – teve ofício de 8 padres. O pároco Manuel da Cunha Leão.
José da Rocha, da Casa da Figueira de Recarei, solteiro, faleceu com todos os sacramentos no 1º dia de Outubro de 1822 e foi sepultado na Capela de Recarei com a idade de quarenta anos. Seus herdeiros pagaram as oblatas do costume da sua casa, dia era ut supra, de que fiz este assento. O reitor Manuel da Cunha Leão – teve ofício de corpo presente de 8 padres 2º e 3º dia.
Ana Angélica, solteira, do lugar do Outeiro de Recarei, de 52 anos mais ou menos, faleceu a 9 de Agosto de 1824 e foi sepultada dentro da Capela de Recarei, em uma sepultura que é de sua casa e para constar fiz este assento. O pároco encomendado Manuel António Pinto – teve ofício de 8 padres – corpo presente, 2º e 3º dia cada um.
Rosa Nogueira (menor) filha de Manuel da Rocha Nogueira e de Ana Angélica Nogueira. Faleceu a 26/11/1825 e foi sepultada na Capela de Recarei. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.
Manuel Nogueira, da Casa do Covo do lugar de Recarei, freguesia da Sobreira, faleceu aos 75 anos mais ou menos, aos 26/01/1829 e foi sepultado no dia seguinte na Capela de Recarei, tendo recebido tão somente o Sacramento da Penitência e Unção e não recebeu o da Eucaristia por estar estuporado[9] e não o poder receber, obradou ao costume da casa.
Reverendo Manuel Joaquim da Rocha Pinto, faleceu no lugar do Outeiro de Recarei, aos 19/07/1829 e foi sepultado no dia seguinte na Capela de Santa Águeda de Recarei, com 70 anos mais ou menos munido com os sacramentos do costume, fez testamento de 200 missas por sua alma e obradou ao costume da casa [do Alferes do Outeiro]: 3 alqueires de milho; mais meia raza em um cesto, três cântaros de vinho, um carneiro e para constar fiz este assento, era ut supra. O reitor Joaquim da Silva Nogueira. Teve ofício de corpo presente com 8 padres e no 2º e 3º dia.
Manuel da Rocha Oliveira, viúvo do lugar da Costa de Recarei, freguesia de S. Pedro de Sobreira, faleceu da vida presente aos dez dias do mês de Setembro de 1831 e foi sepultado no dia seguinte na Capela de Recarei onde tem sua sepultura, de idade mais ou menos 72 anos com testamento ao próprio deixou 25 missas pela sua alma, 5 pela alma de sua mãe, 5 pela alma de sua mulher, obradou ao costume da casa 3 alqueires de milho, 3 cântaros de vinho, meia raza de milho em um cesto, um carneiro, teve ofício de corpo presente no 2º e 3º dias com onze padres no 1º e oito padres nos outros dias, de que fiz este assento era ut supra. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.
(CONTINUA)
_______________________________[1] Recolha feita por Abel da Rocha Nogueira Júnior (Setembro de 2007) e Ivo Rafael Silva (Agosto de 2009).
[2] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Editorial Enciclopédica. Lisboa – Rio de Janeiro.
[3] In “Paredes - Jóia do Sousa”, Dr. Ricardo Pinto e Ivone Torres, Anégia Editores
[4] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Editorial Enciclopédica. Lisboa – Rio de Janeiro.
[5] Expressão em latim que significa “dia, mês e ano conforme acima”.
[6] Tropas napoleónicas que invadiram Portugal sob as ordens do general Soult.
[7] Cf. folha nº204 do livro de registo de óbitos da paróquia de Sobreira do ano de 1813 (Bobine nº263 do Arq. Dist. do Porto).
[8] O mesmo que “Maligna”, sendo esta “febre de mau carácter, febre tifóide, tifo.” In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
[9] “Atacado de estupor; entorpecimento das faculdades intelectuais.” In Priberam – Dicionário Online, Texto Editores - Universal.
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Inéditos
31 de Outubro de 2009
Esta semana na História
5 de Novembro
1930 - Na sessão da Junta de Paróquia dava-se conhecimento de que por Decreto da Inspecção Escolar seriam criados cursos nocturnos em todo o distrito do Porto. Num universo de 500, um deles fora ministrado em Recarei.
6 de Novembro
1836 - Pela reforma administrativa de Passos Manuel era criado o Concelho de Paredes composto inicialmente por 22 freguesias.
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Esta semana na História
18 de Outubro de 2009
Inéditos (XXI/2009)
Dois recaredenses na Guerra da Restauração (séc. XVII)
Os lugares que constituem hoje a freguesia de Recarei estiveram, como se sabe, durante largo período da sua História anexados à vizinha freguesia e paróquia de S. Pedro da Sobreira. Foi, pois, nos registos paroquiais desta última que fomos achar dois curiosos assentos de óbito, cujas parcas mas suficientes indicações aí encontradas nos levam a admitir, com elevado grau de probabilidade, que se tratam ambos de militares envolvidos nas operações militares da Guerra da Restauração (séc. XVII).Comecemos, antes de mais, pelo devido enquadramento histórico.
A referida contenda ibérica surgiu na sequência do levantamento do 1º de Dezembro de 1640 e prolongou-se por vinte e oito anos. Opunha os portugueses, nobres conjurados e Casa Real de Bragança, aos Filipes de Espanha, que tentavam impor o seu cada vez mais apertado jugo sobre Portugal, que mantinham, sob condições que deixaram de cumprir, desde a morte do Cardeal-Rei Conde D. Henrique e consequente crise dinástica de 1580.
As cortes, reunidas a 28 de Janeiro de 1641, determinaram entre outras medidas e com a urgência que se impunha, a defesa estratégica das nossas fronteiras. Para tal, foi mobilizado um numeroso mas impreparado exército, organizado por um Conselho de Guerra permanente, que tratou desde logo de fortificar praças importantes e posições consideradas fulcrais para a defesa do território então dividido em seis províncias principais: Algarve, Alentejo, Entre-Douro-e-Minho, Trás-os-Montes, Estremadura e Beira.[1]
O recrutamento militar foi feito através da criação de 22 comarcas espalhadas por todo o território, cada uma destas subdividida em «companhias», comandadas por um capitão, um alferes e um sargento. Per si as companhias formavam um grupo de cerca de 300 soldados, todos eles homens considerados válidos e com idades compreendidas entre os 15 e os 70 anos. Exceptuavam-se os filhos únicos das viúvas e os lavradores – necessários ao cultivo da terra –, formando, no entanto, em cada comarca, estes e os casados «de boa idade», o chamado «terço de auxiliares». Em caso de guerra, para fins defensivos ou ofensivos, estes «terços auxiliares» guardariam as fronteiras e enquanto aí estivessem receberiam o «pão da munição».[2]
Além dos meios humanos seriam mobilizadas enormes somas de dinheiro, criando-se contribuições adicionais sobre produtos, ofícios, transacções e propriedades, ficando os donos obrigados ao pagamento da décima parte dos seus rendimentos e os eclesiásticos a uma determinada quantia em cada bispado, variando a importância consoante a renda.[3]
Em 1646 e depois de algumas campanhas levadas a cabo em território de Castela, o governo português tomou a resolução de se limitar, daí em diante, à guerra defensiva. Não mais se formaram exércitos para invasão do território inimigo, que até então se resumira ao ataque esporádico, à conquista episódica, ao saque e ao incendiamento de algumas localidades relativamente próximas da fronteira, apostando-se tão-somente na defesa das populações e das suas terras.
Em 1657 Portugal perde Olivença para os castelhanos até ao final da guerra, perdendo-a depois mais tarde, uma vez mais, já em pleno séc. XIX (1801).
Em 1658 prosseguiram as lides na região alentejana, e sob as ordens do general Joane Mendes de Vasconcelos, que tinha a fama de «general azedo e conflituoso»[4], empreende-se o cerco a Badajoz, que entretanto tinha sido ocupada pelos castelhanos comandados pelo Duque San Germano. A 22 de Julho, o general luso logrou ocupar o Forte de S. Miguel, mas pouco depois, ao chegar a notícia de que um numeroso exército vinha de Madrid sob comando de D. Luís de Haro, os portugueses viram-se na obrigação de levantar o cerco.
Neste contexto vem agora a propósito, como certamente se perceberá, fazer a transcrição do primeiro dos dois assentos de óbito que estão na origem deste nosso artigo:
“Manuel, filho de Manuel Gaspar e de sua mulher Domingas Antónia do lugar de Recarei morreo na fronteira do Alentejo e se obradou por elle Domingo 26 de Maio de 658”[5]
O Alentejo foi de resto, durante toda a guerra, o principal teatro de operações. Foi aí que se deram os maiores recontros entre lusos e tropas de Castela e onde se registaram múltiplos actos de pilhagem e destruição.[6]
Porém, os combates estendiam-se igualmente a outros pontos do país, embora em menor escala, não só entre exércitos como também entre populações.[7] No Norte, a campanha de 1658-59 não começara da forma mais satisfatória para as aspirações lusitanas, tendo Monção sido tomada após longo e penoso cerco a que a população da localidade resistiu heroicamente enquanto pode.[8]
Dos registos paroquiais de 1659 se extrai, a propósito, o segundo registo de óbito:
“Miguel, fº de Maria André das Torronhas, se faleceo no mês de Janeiro na fronteira do Minho e se obradou por elle aos tres de Agosto de 659.”[9]
Nove anos depois, com a assinatura do tratado de paz entre ambas as partes - Tratado de Lisboa - foi reconhecida a independência “restaurada” do Reino de Portugal.
_____________________________________
Figura: Ilustração da bandeira do exército português usada durante a Guerra da Restauração.
[1] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. XXV, Editorial Enciclopédia Limitada, Lisboa – Rio de Janeiro.
[2] Idem.
[3] Ibidem.
[4] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. XXV, Editorial Enciclopédia Limitada, Lisboa – Rio de Janeiro.
[5] Cf. Livro de Registos Paroquiais de S. Pedro da Sobreira, Arquivo Distrital do Porto, Bobina nº 262.
[6] MARQUES, A. H. de Oliveira. 1984. História de Portugal. Vol. II. 10ª Edição, Palas Editores. Lisboa.
[7] Idem.
[8] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. XXV, Editorial Enciclopédia Limitada, Lisboa – Rio de Janeiro.
[9] Cf. Livro de Registos Paroquiais de S. Pedro da Sobreira, Arquivo Distrital do Porto, Bobina nº 262.
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10 de Outubro de 2009
Esta semana na História...
15 de Outubro
1939 - A Junta de Freguesia de Recarei recebia um abaixo-assinado de 60 trabalhadores afectados pelo encerramento das minas de Campo (Valongo), em que estes pediam, desesperadamente, "pão para eles, seus filhos e mulheres".
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4 de Outubro de 2009
Inéditos (XX/2009)
Notas toponímicas
Dissertar sobre as origens da toponímia de qualquer localidade, com toda a complexidade que a temática encerra e com toda a importância que do ponto de vista histórico e etnográfico ela representa, é sempre uma tarefa arriscada mas ao mesmo tempo desafiante. Importa ressalvar, por isso, que as tentativas etimológicas aqui deixadas, tendo em vista as possíveis origens dos nomes de lugar, não passam, quase sempre, de hipóteses documentalmente não comprováveis.
Recorrendo à bibliografia especializada e ao nosso levantamento local, faremos uma breve incursão por alguns dos topónimos não abordados em Villa Recaredi (2008) e por aqueles que, embora já tratados, nos mereçam mais algum tipo de notas, reparos ou considerações adicionais.
Agrelo – Não obstante termos abordado este topónimo em Villa Recaredi (2008), consideramos todavia conveniente deixar a seguinte nota: quando falamos do lugar de Agrelo estamos a referir-nos, comprovadamente, a um dos mais antigos lugares da freguesia. Aparece, pois, nos registos da paróquia de Sobreira, pela primeira vez em 1690 (f. 99v., Reg. Bapt.) nomeado como lugar “do Agrello da Costa de Recarei”. Surge primeiro como topónimo e, no séc. XVIII, como apelido de família: “Manuel João Agrello” (f.254 Reg. Ob. de 1720).
Ante Carreira – Topónimo frequente em registos do séc. XVII (p. ex. 1654, 1656, etc.) e séc. XVIII (1714), seguido do topónimo “Costa” ou simplesmente do macrotopónimo “Recarei”. Casos há ainda em que aparece seguido dos dois, como se vê a f. 99 do livro de Reg. de Bapt. de 1690: “Ante Carreira da Costa de Requarei”. O primeiro elemento surge pela localização, sendo este o lugar que está «diante» da Carreira, «à frente de». Quase desaparecido da oralidade popular, «ante carreira» começa onde existe hoje uma óptica médica e onde em tempos funcionou um lagar de azeite, estendendo-se até ao lugar de Amido.
Barreiro – Em registos do séc. XVII, aparece isoladamente ou seguido do macrotopónimo, como se vê a f. 15 do Livro de Registo de Baptismos de 1650: “Barreiro de Recarem”. Num assento da centúria seguinte (1717), a indicação desvenda-nos a localização geográfica: “Manuel João do Barreiro do Outeiro de Recarei” (Reg. Ob. f. 248 v.). É genericamente um topónimo comum em Portugal e na Galiza, podendo o seu significado advir de «lugar donde se tira barro», de «terra alagada»[1].
Bica – Surge por ex. em 1655 (Reg. Bapt. f. 24v.) seguido do macrotopónimo. Ainda em 1669 (Reg. Bapt. f. 56 v.), 1670 (Reg. Bapt. f. 59), 1672 (Reg. Bapt. f. 65 v.) etc. Não conhecemos a sua localização exacta pois o topónimo não chegou aos nossos dias. O nome em si denuncia a proximidade de uma fonte ou «canal de onde sai água»[2], sendo este um nome de lugar muito frequente no nosso país, tanto em nomes simples como compostos.
Carreira – Surge em vários assentos do séc. XVII e XVIII. De acordo com testemunhos dos mais antigos chamava-se «lugar da Carreira» ao espaço compreendido entre o Amieiro e o local onde existe hoje a sede social do Sport Clube Nun’Álvares. Deve o seu nome à existência ali de um pequeno caminho ou passagem.
Chousas – A actual rua com este topónimo situa-se em Terronhas. Do latim clausus. Uma chousa, ou o seu masculino, diz-nos Figueiredo[3], trata-se de um «redil ou sebe, que os pastores armam no campo, de Verão, para ali recolherem o gado». Significa ainda «pequena fazenda cerrada, tapado; cerrado.»
Eirado – Surge em 1649 (f. 12 v.) seguido de macrotopónimo (da Costa de Recarei, ou simplesmente de Recarei) como elemento distintivo, pelo facto de existir “Eirado” no lugar de Casconha (Sobreira) e também em Bustelo (Recarei). De eira, do lat. area, «superfície, solo unido, plano», «espaço para bater o trigo». Significava também «cemitério» (séc. XV): “foisse a eirado onde jaziao os Martires” [4].
Lameiro – Topónimo muito antigo já mencionado no foral manuelino[5] (séc. XVI). Surge nos registos paroquiais em 1644 (f. 4) e 1664 (f. 44 v.), sempre seguido do macrotopónimo. Já demos conta em Villa Recaredi (2008) de “Vale Lameiro”, sito na zona de Bustelo, que poderá tratar-se do mesmo local. De significado evidente, onde existe «lama», como Lameiras, em Terronhas.
Legrete – (ver Alegrete em Villa Recaredi, 2008) Chegou aos nossos dias como Alegrete, apesar de aparecer persistentemente nos assentos sem a vogal a. Vê-se Legrete p. ex. em 1647 (f. 8), 1649 (f. 12) e nos anos seguintes até ao séc. XIX. De resto, na oralidade popular, o topónimo permanece como se lia e escrevia no séc. XVII, sendo certo que era a escrita que obedecia à oralidade e não o contrário, pois ainda hoje os mais antigos se referem ao dito lugar dizendo Legrete e não Alegrete. Importa referir ainda a existência de Legreta como sobrenome ou apelido (ex. “Maria Legreta”) em 1650 (f. 14 v.).
Pedrógão – Topónimo frequente mas de explicação algo obscura e não consensual. Surge em documentos antigos sob a forma de Petragonum (séc. XII), Pedrogano e Petroganum (séc. XIII), esta última latinizada, já com “o sentido de «pedra esbranquiçada», «rocha branca», quando da invasão muçulmana (séc. VIII).”[6] Situa-se junto a Laceiras, já próximo da divisória com a vizinha freguesia de Gandra.
Recarei – Macrotopónimo formado a partir do nome próprio de origem germânica Recaredo. Documentalmente aparece sob as formas de Rekaredi (séc. X), Recaredi (séc. XI), Reccarei, Recharei e Recarei (séc. XII), Recarey e Recarhey (séc. XIII)[7]. Nos livros de registo paroquial os sacerdotes escreviam-no de várias formas: Recaré, Recarém, Recarem, Dercarei, Requarei (séc. XVII). Inclinamo-nos a defender que a sua origem remontará ao período da Reconquista Cristã (séc. IX), época em que os nobres asturianos, aproveitando uma conjuntura favorável, tomaram à força grande parte das terras a norte do Douro: as chamadas presúrias. Ao apossarem-se dessas terras os presores perpetuavam nelas o seu nome – uma prática indicadora de posse já anteriormente levada a cabo pelos romanos –, razão pela qual é frequente encontrarmos ainda hoje, nesta região, topónimos que tiveram origem em nomes próprios. Antes de se tornar nome de freguesia independente (séc. XIX), era já topónimo de vasta abrangência territorial, concentrando em si dezenas de microtopónimos. Nos registos paroquiais essas subdivisões geográficas localizadas a oeste da igreja matriz da Sobreira, eram quase sempre complementadas com o macrotopónimo “Recarei”: “Costa de Recarei”, “Lamela de Recarei”, “Outeiro de Recarei”, “Barreiro de Recarei”, etc. Assim acontecia com quase todos os nomes de lugar ainda hoje identificáveis, excepto com os de formação recente e com aqueles que eram já, até ao séc. XIX, de maior dimensão e por si só concentradores de subunidades toponímicas: Terronhas e Bustelo. Quando em 1855 e 1856 foram dados os passos necessários para a desanexação dos lugares de Recarei, Terronhas, Bustelo, Alegrete e Orengas – os nomeados no decreto episcopal – da freguesia da Sobreira para formação de nova entidade administrativa e religiosamente autónoma, o primeiro seria o topónimo dominante, certamente por ser a parte central de todo este espaço geográfico e a zona mais habitada (reunindo os lugares da Costa, Portela, Lamela, Outeiro, Cabido…), pelo que a sua escolha para designação da novel freguesia terá sido como que natural.
Rua 18 de Maio – Para que conste, deu-se a esta rua do lugar do Cabido o nome da data de conclusão das suas obras de calcetamento.
Rua de Jabel – De acordo com a nossa recolha morou em tempos ou era dono de uma propriedade daquele lugar ou daquela rua, um senhor chamado “Luís Abel”. A oralidade popular foi moldando, por processo natural, a pronunciação destes dois nomes próprios. A dada altura a propriedade de “Luís Abel” passou a ser chamada de lugar “de Luijabel”, depois foi perdendo vogais passando a lugar “de Lujabel”, “de Ljabel” até se tornar no actual topónimo “de Jabel”. Não temos datas concretas para apresentar mas todo este processo é relativamente recente. Assim chegou aos nossos dias e nessa corrupção onomástica recaiu a escolha da Junta de Freguesia para baptizar a rua.
Rua de Valtomar – Do antropónimo germânico Baldemarus, que terá estado na origem da designação dos lugares actuais de Baldomar (Porto, Viana do Castelo; na Galiza, em Corunha), Valdomar (Braga, Orense, Porto; na Galiza, em Pontevedra)[8] e, certamente, do nosso Valtomar, em Recarei.
Siqueiros / Sequeiros – Topónimo muito antigo já mencionado no foral manuelino[9] (séc. XVI). Lugar muito povoado no séc. XVII, pelo menos. A atestá-lo o facto de ser frequentemente citado nos assentos paroquiais. Provém da palavra latina siccarius, significando «lugar de terreno seco», «sem água de rega». É também o mesmo que enxugadouro, secadouro, locais onde se estendem roupas para enxugar, frutos para desidratar, folhas de plantas e peças de olaria, entre outros. Sequeiro é também um regionalismo para designar uma espécie de espigueiro.[10]
Vale de Estrela - «Vale» é elemento topográfico de significado evidente. O topónimo «Estrela» sugere-nos Machado[11], provém do “latim stela, stella («estela», «cipo», «túmulo», ao lado de stella, «estrela»). (…) Acrescente-se a possibilidade de o lat. stella (> port. estrela) ter sido sugerido por topónimo pré-romano iniciado por set- > est-, nome de elevações (em céltico ou pré-céltico) que por vezes aparece com sufixos latinos, neste caso –ella.” A ladeira do Vale de Estrela situa-se na zona do Cabido.
Vale dos Infernos – O primeiro elemento é topográfico, de significando evidente. Já o segundo estará por mera metáfora, da mesma forma que se dá o nome de “Boca do Inferno” a um local estreito, íngreme e penhascoso da Senhora do Salto, freguesia de Aguiar de Sousa. O “Vale dos Infernos” situa-se na zona de Além-do-Rio e à data da designação dever-se-ia tratar de um local inóspito, feio, agreste ou inabitável. No fundo deste vale corre o rio Sousa, ladeado de verdes margens e encostas repletas de árvores fortes e viçosas. Nos dias de hoje aquele sítio não parece corresponder à ideia que terá originado o seu tão depreciativo nome.
Vale Tojinho – O segundo elemento é diminutivo de tojo, “palavra especial do noroeste da Península Hispânica” e “supõe-se-lhe uma base toju, seguramente pré-romana”.[12] Situa-se na zona de Bustelo.
______________________________________________
[1] MACHADO, J. Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. Livros Horizonte. 3ª Edição. Lisboa, 2003.
[2] Idem.
[3] FIGUEIREDO, Cândido de. Grande Dicionário da Língua Portuguesa. 25ª Edição. Bertrand Editora.
[4] MACHADO, J. Pedro. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Livros Horizonte. 8ª Edição. Lisboa, 2003.
[5] Foral de Aguiar de Sousa dado pelo Rei D. Manuel I em Lisboa a 25 de Novembro de 1513. Ver parte “Titollo de Recarrey”.
[6] MACHADO, J. Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. Livros Horizonte. 3ª Edição. Lisboa, 2003.
[7] Idem.
[8] Ibidem.
[9] Foral de Aguiar de Sousa dado pelo Rei D. Manuel I em Lisboa a 25 de Novembro de 1513. Ver parte “Titollo de Recarrey”.
[10] Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. Academia das Ciências de Lisboa. Ed. A. C. Lisboa e Editorial Verbo. 2001
[11] MACHADO, J. Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. Livros Horizonte. 3ª Edição. Lisboa, 2003.
[12] MACHADO, J. Pedro. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Livros Horizonte. 8ª Edição. Lisboa, 2003.
20 de Setembro de 2009
Inéditos (XIX/2009)
Quando o povo de Recarei saqueou as tropas de D. Pedro IV
«(…) e foi nesta ocasião, que um Batalhão de Ingleses ao serviço dos rebeldes, que se achava em Ricarem, cujo Povo saqueou, sabendo da passagem do Batalhão, e sendo reforçado a propósito por um Batalhão do extinto Regimento 18 (…)»
É já por nós sabido que, nesta terra, tiveram lugar algumas movimentações militares no âmbito da guerra civil entre liberais e absolutistas (séc. XIX). Não vamos por isso repetir o que já foi escrito sobre esta matéria em Villa Recaredi (2008), concentrando-nos antes, desta feita, nos novos factos entretanto surgidos.Demos conta, na nossa monografia, da surpresa que causara ao general britânico George Lloyd Hodges, a forma passiva e aparentemente indiferente como as gentes que por cá viviam e labutavam nos campos pareciam reagir – ou, melhor dito, não reagir! – à passagem das tropas pela região.
No entanto, uma comunicação feita pelo Visconde de Santa Marta e dirigida ao Visconde de Barbacena[1], vem-nos mostrar que o povo de Recarei não terá estado tão passivo quanto isso, e ter-se-á mesmo aproveitado da passagem do batalhão liberal para “saquear” as respectivas tropas que, “a propósito”, tiveram inclusivamente de ser reforçadas.
Passemos a transcrever um excerto da citada missiva[2]:
“Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: - Tenho a honra de por nas mãos de V. Ex.ª a parte que me dirigiu o Coronel Vasconcelos, do Batalhão de Voluntários Realistas de Braga, sobre o combate de dia 18 do corrente, em Paredes, imediações de Penafiel, e depois na mesma cidade. Havia eu mandado passar o Norte do Douro o Batalhão de Braga, a fim de impedir, que pequenas colunas dos rebeldes talassem a Província do Minho, e o Partido do Porto; e foi nesta ocasião, que um Batalhão de Ingleses ao serviço dos rebeldes, que se achava em Ricarem, cujo Povo saqueou, sabendo da passagem do Batalhão, e sendo reforçado a propósito por um Batalhão do extinto Regimento 18, com duas peças de calibre 3, de Montanha, e vinte e cinco Estudantes dos que estavam refugiados nos Açores, seguiu aquele Batalhão, e o atacou em Paredes, imediações de Penafiel, em duas colunas, em força tudo de 900 homens. (…)”[3]
O resto da carta narra as acções do combate travado em Paredes e que aqui não nos interessam tanto.
O documento que serve de base ao presente artigo não nos dá, infelizmente, outros detalhes, deixando-nos somente a informação de que houve, de facto, um “saque” ou roubo, por parte do povo desta terra às tropas leais a D. Pedro IV. Um apontamento curioso que no contexto histórico geral não passará, dirão, de um pormenor, mas que a nossa teimosia nos leva a não ignorar.
As informações que os generais de um e de outro lado da contenda davam aos respectivos superiores, eram, em certos casos, tremendamente díspares e muitas vezes falaciosas. Acreditaríamos que, por exemplo, relativamente a confrontos directos, como foi o caso da batalha da Ponte Ferreira, os relatores aumentassem o número de baixas do inimigo ou ficcionassem acontecimentos em seu proveito. Porém, e apesar de não haver, até à data, do lado liberal, qualquer notícia que confirme este “saque”, a informação desse pormenor num relatório que trata sobretudo de narrar as acções ocorridas em Paredes, não nos parece algo que importasse muito “inventar” pelo que nos merece todo o crédito.
Dois dias depois desse conflito, o Visconde de Santa Marta atravessa o rio Douro com as respectivas tropas, passa “as elevadas serras” de Aguiar de Sousa e estabelece acampamento em Recarei:
“Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: - Tenho a honra de acusar a recepção do Ofício de V. Ex.ª com data de 17 do corrente, que ontem [20 de Julho de 1832] me entregou o Tenente Champalimaud no acantonamento de Recarreim quatro léguas ao Norte do Rio Douro, aonde cheguei com a 1ª Brigada, três Esquadrões, e quatro Peças de Artilharia, e Batalhão de Voluntários Realistas de Viana; este Batalhão, Artilharia e Cavalaria marcharam sempre comigo, e fizeram oito léguas de marcha desde o anoitecer do dia 19 até às 4 horas da tarde de ontem: à descida do Carvoeiro para o Douro, e à subida do outro lado do Rio para ganhar as elevadas Serras do distrito de Aguiar de Sousa, parecia impossível que passasse a Artilharia, contudo a boa vontade dos Soldados Artilheiros superou tão grandes e continuadas dificuldades, e à hora indicada chegámos a Recarreim. (…)”[4]
A estadia deste contingente absolutista em Recarei demorou apenas um dia. Logo depois, a 21 de Julho, os miguelistas instalaram-se na vizinha freguesia de Campo, concelho de Valongo, onde dois dias depois se travaria uma sangrenta batalha entre ambas as facções conflituantes e que constituiria um episódio marcante da guerra civil: a célebre batalha de Ponte Ferreira.
Com base na bibliografia consultada foi por nós referido em Villa Recaredi (2008) que nessa batalha teriam falecido mais de 460 homens. Veja-se, todavia, o contraste dos números apresentados na época pelos órgãos de comunicação afectos quer a liberais quer a absolutistas: A Chronica Constitucional do Porto[5], afecta a D. Pedro IV, diz que “a nossa perda entre mortos, feridos e extraviados, nas duas acções dos dias 22 e 23, pouco pode exceder de 300 homens; a do inimigo, segundo todas as informações, excede a 1200”. Por seu turno, do lado miguelista, o visconde de Santa Marta diz que do seu lado morreram apenas 55 (!) e os feridos foram em número pouco superior a 200.
Como se vê, não é fácil chegar a uma conclusão relativamente a números, mas não há dúvida que pelas descrições feitas, sobretudo as que nos chegaram por via do minucioso trabalho do historiador Simão Soriano sobre o “Cerco do Porto”, é-nos possível concluir que a mortandade foi de facto elevada e terá mesmo ultrapassado as quatro centenas de almas.
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[Foto: D. Pedro IV]
[1] Francisco Furtado de Castro do Rio de Mendonça e Faro.
[2] in Gazeta de Lisboa, nº 174, de 25/07/1832, p. 857.
[3] Idem
[4] Ibidem, p. 858.
[5] De 28 de Julho de 1832, p. 50.
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