28 de Dezembro de 2008

Inéditos (V/2008)

Dialectologia Recaredense

“Apregoa-se vulgarmente: o povo corrompe a língua, não sabe ler, e por tanto não sabe falar, estropia, inventa sem pés nem cabeça. E contudo não há nada mais falso.”


O dialecto, mais do que um «modo de falar» é um traço identificativo de culturas e vivências regionais. A ciência que se ocupa do seu estudo – a dialectologia – foi uma das matérias do conhecimento estudadas pelo insigne filólogo, historiador e linguista José Leite de Vasconcelos. Além da vertente teórica dos seus exercícios historiográficos, JLV elaborou um levantamento interamnense[1] de termos populares, que não podia, como é óbvio, deixar de parte as terras de Paredes, concelho ao qual pertence a freguesia de Recarei.
Introdutoriamente o citado autor esclarecia: “Apregoa-se vulgarmente: o povo corrompe a língua, não sabe ler, e por tanto não sabe falar, estropia, inventa sem pés nem cabeça. E contudo não há nada mais falso.” De facto a linguagem é, como refere Leite de Vasconcelos, um “instrumento natural de expressão” que varia de acordo com factores etnográficos, antropológicos, geográficos, entre outros.
Nos primórdios da nossa História, o português era apenas falado. Não era escrito nem sequer nas classes mais cultas. Quando havia necessidade de deixar algo para memória futura ou fazer comunicações por via de manuscritos, usava-se o latim. Assim aconteceu até ao séc. XII, altura a partir da qual a nossa língua passou a ser redigida, ganhando forma e criando tradição literária. A partir daqui estabeleceu-se a diferença entre a linguagem dita “popular” e a literária, sendo a elas comum um conjunto de elementos originários da época em que Portugal não estava ainda separado do reino vizinho. [2]
Recorramos, a título de exemplo, ao simples exercício de comparar a pronúncia de certas palavras aos equivalentes nos demais idiomas hispânicos. Os portuenses dir-se-ão naturais da cidade do Puarto, sendo porto, “puerto” no actual Espanhol. A mesma semelhança fonética se passa por exemplo com fuarte, suarte (forte, sorte) de fuerte, suerte. São, no fundo, autênticos testemunhos vivos de uma comunicação e vivência milenar comum entre povos que são hoje de países distintos. Podemos, assim, concluir que a pronúncia é também um meio de transporte entre o passado e o presente.
É frequente depararmo-nos hoje com alguns erros de oralidade curiosos, na medida em que têm origem na evolução do próprio registo da língua, ou dito de outra forma, no trato verbal em consonância com os costumes. O antigo uso do “vós” - que apesar de tudo resiste na linguagem corrente nalgumas terras do norte e interior do país - para se referir à segunda pessoa do singular, fez com que, por exemplo o clássico “vós fizestes”, se diga hoje, erradamente, “tu fizestes”, tendo-se substituído o pronome mas mantendo-se, como “herança”, a forma verbal no pretérito perfeito do indicativo.
Tudo isto virá, de certa forma, corroborar a opinião de Leite de Vasconcelos sobre o interamnense, um dialecto que resulta da “evolução normal do latim da Lusitânia” e não propriamente da “corrupção da língua culta”.
Vejamos alguns exemplos de fenómenos dialectais recolhidos directamente no concelho de Paredes e que, sem grande dificuldade, ainda hoje são passíveis de se ouvir e identificar perfeitamente na linguagem coloquial das nossas gentes:
O –óum ou –õu, como em carbóũ (carvão), questóũ (questão), irmáõ, menhão (manhã), maçáõ (maçã) é um ditongo nasal, evoluído de –om, que no séc. XVI era próprio da província de Entre-Douro-e-Minho. Já quando se diz –mã (mão) ou Joã (João), reporta a origem ao galego man e Xan, tal como fórã e ándã, de foran e andan.
Constituíram motivo de zombaria, segundo Vasconcelos, os termos cáurdo (caldo), áurma (alma), Báurtar (Baltar) usados, por exemplo, em Rebordosa.
A manutenção do ê e ô tónico é perceptível em palavras como êsta, têmpo, bênto (vento; aqui também com a transformação do v por b, fenómeno comum em toda a região norte), piquêno, pônte, mônte, sendo sabido que noutros concelhos nortenhos as vogais se ditongam em e ũô.
A transformação fonética de andaram para andáro, dá-se por perda do som nasal do átono –om, da mesma forma que foram-se se pronuncia fôro-se, e noutros casos como loubáro, fijero, comêro, matáro. A mesma transformação acontece quando se trata de –em enquanto átono, caso de home (homem).
Fenómenos vários: dreito (direito), possibele (possível, bem como todas as palavras terminadas em –vel), três centos (trezentos), dez centos (dez mil), deceder (decidir).
Há ainda o verbo trupiar (tropear, bater à porta), se bem que na nossa terra ouve-se mais trupar. São muito comuns as curiosas formas verbais dixe (disse), fazeu (fez), fuge (foge, imperativo), eu foi (eu fui), troixe, quijer, bêum (do arcaico beo, veio), fijestes.
Reveste-se de singularidade a forma de designar o dinheiro: pinto menos vinte (460 réis, isto porque, explica-nos J. L. Vasconcelos, um pinto valia 480 réis); sete e vinte (720 réis); seis e três (660 réis, ou seja, 6 tostões + 3 vinténs).
Títulos de canções populares: Manjaricóũ amarelo; À jinela do abade; Nunca bi mulher mintir, Nãi home falar berdade (Mouriz).
O autor da obra a que nos temos vindo a reportar e da qual temos transcrito estas indicações, recebeu certa vez uma lista de «palavras usadas pelos lavradores». Seleccionámos algumas das que mais frequentemente se vão ainda escutando por cá: arriba, açucre, áuga, antão, alampádas (agachados), antonte (anteontem), abobra, amistade, alebante (revolução), adéi (e d’aí), alvez (às vezes), adente (adiante), arrigar, arrincar (arrancar), almazém (armazém), alfanêtes (alfinetes), arranjar-se (casar-se), (bom ou boa), biscuitos, bosselência, beixo, boncê, bubêr, bardade, beu (veio), bêspra (vespa), bonecro, brão (verão), buber uma porrada d’auga (beber muita água), bulador (pau com vários furos onde se pendura a candeia), brumêlho (vermelho), cantro (cântaro), chuiba, católco, coisíssema, cachiné ou cochiné (cache-nez), confessanairo, cumprénde (compreende), celoiras (ceroulas), carrela (padiola ou carro-de-mão), dezêr (dizer), diacho dianho, desvasiar, enorminho (demente), eiteiro (Outeiro), emprégado (entravado), enguiçar (saltar por cima de alguém), foi (fui), home, ingiva (gengiva), inté, inxinho (ancinho), jinela, lamboeirada (pancada com pau pelas costas), laboeira (lavoura), lóge (loja), laidrar, menestrador (administrador), mexifórdia (mistura), marenda, meidia (meio-dia), marrocar (baixar a cabeça com sono), munho (moinho), munta bês (muita vez), fazer minga (ser preciso), numbro, numaro, noutor dia (noutro dia), óspois, ósdespois, ódepois (depois) ouvisto (ouvido), pagóde (patuscada), pacença (paciência), prespiar (principiar), pruparar (preparar), pondricalho (penduricalho), prebir (proibir), panasco (relva), pouquechinho (muito pouco), querédo (credo), rabia (rabeia), romédio, reção (ração), starrincar (trincar rangendo os dentes ou trincar fazendo barulho), cunsante, comesante (consoante, conforme), estabalhoado (trapalhão), sediéla (sedela), seramaganta (salamandra), sebadola, sebados (porcos, isto é cevados), subina (muito poupado, sovina), tresantonte (três dias antes), tolêdo (asneira), tuido (tudo), tunadinha (quase nada).
Quem conhece a obra do filólogo Leite de Vasconcelos certamente saberá que muito mais há a descobrir nos seus opúsculos. Ficará para o leitor mais curioso, a incursão e descoberta aprofundada deste e de outros estudos de relevância cultural inquestionável.
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[1] Do latim inter amnes, entre rios, referindo-se à província de Entre-Douro-e-Minho.
[2] VASCONCELOS, José Leite de; OPÚSCULOS - Volume II – Dialectologia (Parte I), Coimbra, Imprensa da Universidade, 1928

1 comentários:

Turma 1 disse...

Mostrei este artigo aos meus alunos na escola e deu para alguma risada! Descobrimos outros vocábulos que penso não teres referido:
mocho - banco
p'ra môr de - para
e adei? - e então
Há mais mas agora não me lembro. Vou ver se com eles na escola actualizamos a lista.
Foi engraçado ver que nós, professoras ainda usamos alguns termos. Eu uso frequentemente o "piangar"e o "estabalhoado", mesmo na escola e âs vezes dão cá um jeitaço...
Vamos visitar-te mais amiúde