25 de Dezembro de 2008

Inéditos (IV/2008)

Uma homilia de Natal
com meio século

«O neo-paganismo (…) querendo apagar a lembrança d’Um Deus Menino, (…) faz representar o Natal por um velho, muito velho, de longas barbas, ou por uma árvore frondosa carregada de belos frutos.»

Recuemos ao ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1958. Como era costume, pelas 23h do dia 24 de Dezembro, ouviam-se em toda a freguesia as badaladas do sino-mor coadjuvado pelas sinetas setecentistas que, da altiva torre da velha igreja, convidavam o povo à participação na “Missa do Galo”, celebrada tradicionalmente à meia-noite.
A frieza da invernia que chega pela madrugada tingia os campos de alvura.

Natal de Deus… ó Senhora
Cobre teu Filho melhor
A neve é tanta lá fora
Que há montes dela em redor.
[1]

O povo fiel e devoto ruma à sua igreja para cumprir um sagrado dever já com muitos séculos de História.

O vento frio, inclemente
Dá roncos de maldição
Se a fé não fosse tão quente
Gelava o meu coração
[2]

Na cabeça dos cavalheiros, uma boina ou chapéu de aba curta, geralmente de cor escura, solenemente retirado em sinal de respeito quer no ritual de saudação, quer no acto de entrada na igreja matriz. Pelas costas, a velha samarra lá vai cortando o frio e aconchegando aquele corpo sem alimento, pelo menos, há mais de três horas. Cumpria-se fielmente o jejum eucarístico, conforme os ditames canónicos da Santa Madre Igreja.
Não corriam ainda tempos de fartura, mas contudo havia alguma novidade. Já se via televisão na sede social do Vasco da Gama, mediante o pagamento de 5 tostões, e em muitas casas já a iluminação eléctrica havia substituído os velhos candeeiros a petróleo ou a azeite.
Nesse ano, um certo Portugal enchia-se de esperança num tal “General Sem Medo”, que havia prometido, com um célebre “Obviamente, demito-o!”, a substituição do Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar.
A Europa via entrar em vigor o Tratado de Roma, DeGaulle regressava ao poder em França e João XXIII era aclamado novo Papa da Igreja Católica Apostólica Romana.
O pároco de Recarei já não era o Pe. António Ferreira de Sousa. Este sacerdote, grande benemérito entre nós, havia deixado Recarei a seu pedido em 1953, tendo posteriormente sido nomeado reitor e capelão da Igreja da Ordem do Carmo, na cidade do Porto. Aí terá, eventualmente, proferido as palavras que iremos transcrever neste artigo.
Do espólio que reúne as suas homilias, chegado até nós por oferta da Sra. D. Maria Arminda Ferreira de Sousa Lopes, retirámos entre velhos manuscritos, um documento dactilografado com o título de “Mensagem do Natal em 1958”. No topo da folha, a lápis, pelo punho do sacerdote, uma frase: “Glória a Deus nas alturas e na terra Paz aos Homens”. Em seguida, o corpo da cinquentenária homilia do Pe. António Ferreira de Sousa:

Entre todas as festas com que a Santa Igreja presta honra e glória a Deus, ou deseja glorificar algum dos seus Santos, é sem dúvida a festa do Santo Natal aquela que mais de perto toca os nossos corações e que, apesar da maldade dos tempos e dos homens, conserva todo o seu prestígio e toca a sua popularidade:
Não obstante a hora incómoda da noite
[3], do frio ou até mesmo da chuva, vós viestes em grande número a esta Igreja, que é neste momento imagem engrandecida e transfigurada do Estábulo de Belém.
Vós viestes, e com razão, quais outros pastorinhos que há 2000 anos se dirigiram das montanhas ao Presépio, à procura de Jesus; ou quais magos do Oriente, à procura do grande Rei.
Então como hoje e hoje como então o mundo tem, e há-de continuar a ter, necessidade de Cristo. Ele veio na verdade para salvar o mundo, fora d’Ele não há salvação e não há nada nem ninguém que o possa substituir.
Os homens por mais que tentem contrariar esta verdade, ou fingir ignorá-la, jamais poderão deixar de ser obra de Deus, que moldou com a sua própria mão as feições do nosso ser e em nosso corpo infundiu uma alma, que é um retrato do mesmo Deus, feita à sua imagem e semelhança.
Mas esta alma tem um destino traçado por Deus, tem regras para atingir o seu fim; mas essas regras estão em Cristo, que é o seu Criador, seu Senhor e seu Rei.
Somos dotados de inteligência e vontade, reflexo dos atributos ou perfeições divinas, inteligência que tende a escolher, vontade que se inclina a querer; mas quer uma quer outra são limitadas na sua esfera de acção. A inteligência quando não descobre, pergunta, e há perguntas às quais só Cristo, com a sua doutrina, pode responder. A vontade tem as suas fraquezas que só Jesus Cristo pode remediar. É que Ele e só Ele é o Doutor das inteligências inquietas e a fortaleza das vontades vacilantes.
Temos em nós um coração, coração feito por Deus para amar, assim como os olhos foram feitos para ver; mas este coração tem as suas mágoas, tem as suas dores e tristezas, e não há ninguém neste mundo, senão Jesus Cristo com a sua mão divina e acariciadora que lhe possa dar alívio e consolação; Ele é o Consolador dos corações magoados.
Fazemos parte duma família, pertencemos a uma Pátria e somos portadores duma civilização sem igual. Mas tudo isto devemos a Cristo Salvador. Foi Ele quem restaurou e dignificou o homem, a mulher e o lar doméstico, erguendo-os ao lugar que por direito lhes pertenciam e donde se haviam precipitado; é Ele quem abençoa e fortalece o sentimento nacional, e da maior civilização de todos os tempos e de todos os lugares, é Ele o seu Autor.
Mas triste realidade é esta: quando todos os homens se deviam orgulhar de serem obra de Deus, imagem de Deus e destinados para Deus, parece que a maior parte não faz outra coisa que não seja contrariar estas verdades, fingindo até ignorar a existência do mesmo Deus. Mas ainda flagrante contradição: fogem de Deus e caminham para Deus; tentam negar a existência de Deus verdadeiro e inventam para os substituir uma falsa divindade.
Isto mesmo é uma demonstração de que o homem tem necessidade de Deus.
O antigo paganismo tendo necessidade de um Deus a quem adorasse, mais por ignorância do que por maldade, ia buscar Deus ao Sol, à Lua, aos animais, às plantas ou até mesmo aos seres inanimados; o neo-paganismo, mais por ódio e maldade do que por ignorância, tenta arrancar do coração de todos, até mesmo das criancinhas, todo o sentimento religioso; querendo apagar a lembrança d’Um Deus Menino, nascido numa choupana, colocado em secas palhas e envolto em pobres panos, faz representar o Natal por um velho, muito velho, de longas barbas, ou por uma árvore frondosa carregada de belos frutos.
Arte e processo diabólicos que só tem por fim reconduzir as novas gerações ao antigo paganismo. Assim procedem aqueles que, ao serviço de Satanás, o maior inimigo de Cristo, tentam destruir a religião. Para isso, rasgam o Evangelho, derrubam a Cruz, fecham as escolas, e expulsam os Ministros de Cristo. Não contentes ainda, proclamam-se eles mesmos divindades.
Oh vã temeridade… oh orgulho e soberba diabólicos… O Homem a querer ocupar o lugar de Deus.
Pregando-nos a humildade, a bondade e o amor, o Deus-Menino, nascido em Belém, estende para nós os seus braços amorosos; e sem deixar de ser Deus, faz-se homem e vem até nós para, sem deixarmos de ser homens, nos erguer e levar até Ele.
Com estes santos pensamentos, presos na Lapinha de Belém, demos Glória a Deus nas alturas, e peçamos-Lhe que haja na Terra, entre os homens, Paz e Amor, Justiça e Bondade; e em vossas casas, carinho, calor, harmonia e as Bênçãos de Deus.
São estes os votos muito sinceros que ardentemente faço hoje a Jesus-Menino.

Pe. António Ferreira de Sousa

Biografia
Pe. António Ferreira de Sousa - Nasceu na Casa de Currais, freguesia de Galegos, concelho de Penafiel, a 24 de Junho de 1900. Filho de Albino Ferreira de Sousa e de Hermínia Beatriz de Sousa. Foi ordenado a 25 de Julho de 1926. Foi encarregado de Aguiar de Sousa de Setembro de 1926 a Novembro de 1928. Foi nomeado Pároco de Recarei a 25 de Julho de 1928, aqui permanecendo até Janeiro de 1953. Foi Vigário da Vara do 1º Distrito Eclesiástico de Paredes de 1946 a 1953 e Capelão da Igreja do Carmo, no Porto, desde 1953 até que faleceu a 26 de Setembro de 1991. Possui em Recarei, uma rua com o seu nome. (in Villa Recaredi, 2008)


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[1] NOGUEIRA, Bernardino da Rocha (Tio Dino); Aqui, na minha vida; 2007.
[2] Idem.
[3] Referência que nos remete para a “Missa do Galo”, que tinha início à meia-noite de dia 25.

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