Recarei, na correspondência
de Eça de Queirós
«Amanhã, se Deus quiser, parto muito cedo para Sta. Cruz,
devendo encontrar o Luís na estação de Recarei.»
devendo encontrar o Luís na estação de Recarei.»
Se houvéssemos de enquadrar este artigo na obra «Villa Recaredi», certamente o poríamos no último, mas não menos interessante, capítulo reservado às curiosidades históricas da vila recaredense.
Não é muito mais do que um breve apontamento, revestido porém, na nossa perspectiva, de singular interesse. São também pequenos episódios e factos como este que deliciam os curiosos da nossa História colectiva.
Nos finais do séc. XIX, um dos mais ilustres escritores portugueses, José Maria Eça de Queirós, escreveria um romance que, no entanto, só fora publicado a título póstumo já no início de novecentos. “A Cidade e as Serras” entrou no rol das grandes obras literárias do nosso tempo, sendo parte integrante dos conteúdos programáticos de vários graus de ensino do nosso país, sobre a qual era imperiosa uma análise que versasse, entre outros aspectos, a simbologia e a conotação ideológica das linhas e entrelinhas da prosa queirosiana.
Poucos, como Eça, descreveriam de forma tão harmoniosa e fiel, as ambiências, paisagens e quadros quotidianos da região duriense, na época só alcançável, com eficiência e comodidade, via caminhos-de-ferro, essa implementação revolucionária do liberalismo.
A bordo das elegantes carruagens puxadas por locomotivas a vapor, o romancista fez prender o seu olhar atento àquelas paragens tranquilas de vinhais e serranias que marginam o Douro, essas “escadas verdes que dão para o céu” como escreveria o poeta da nossa terra.
Era por ali que encontrava o tal “equilíbrio e felicidade”, expondo-nos na sua obra a famosa dicotomia “cidade versus campo”, o contraste do tédio e da confusão por oposição à ruralidade, ao sossego e “às origens”, neste caso, da personagem Jacinto, na localidade com o topónimo ficcionado de Tormes (Santa Cruz do Douro, Baião).
Numa das cartas que Eça dirigiu à sua mulher, datada de 30 de Maio de 1898, ele faz-lhe saber, entre outras coisas, que planeara encontrar-se, no dia seguinte, com seu amigo Luís de Magalhães. Ponto de encontro: “Estação de Recarei”.
Do livro “Correspondência de Eça de Queirós” [1] compilado por Guilherme de Castilho, transcrevemos um primeiro extracto da referida missiva:
Minha Querida Emília,
Em viagem não se pode escrever longamente – sobretudo em cima duma cómoda.
Remeto pois, sem outras conversas, o cheque de 300 frs.
Vim hoje de Moreira[2], onde tudo está forte, alegre e próspero. Amanhã, se Deus quiser, parto muito cedo para Sta. Cruz, devendo encontrar o Luís na estação de Recarei. O tempo enfim está benévolo. (…)
O cais desta estação ferroviária, que tão bem conhecemos, ter-se-á assim constituído como ponto de encontro entre duas ilustríssimas personalidades da cultura contemporânea portuguesa. Se já anteriormente falámos sobre Eça, importa também dedicar aqui umas breves linhas ao segundo interveniente.
Luís de Magalhães nasceu em Lisboa, a 13 de Setembro de 1859. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Notabilizou-se enquanto jornalista, escritor e poeta, tendo sido também deputado e ministro dos Negócios Estrangeiros num governo efémero liderado pelo conhecido estadista João Franco. Exerceu ainda o cargo de Governador Civil de Aveiro e fundou várias publicações periódicas. Era um monárquico convicto, tendo chegado mesmo a tomar parte do golpe militar conhecido na nossa História recente como “Monarquia do Norte”, ocorrido na cidade do Porto a 19 de Janeiro de 1919. Viveu em Moreira da Maia, tendo lá adquirido a Quinta do Mosteiro. Nesse mesmo local foram realizadas várias tertúlias onde participaram personalidades de relevo da cultura lusa e que faziam parte do núcleo de amizades do seu proprietário. Antero de Quental, Oliveira Martins, Magalhães Lima, Alberto Sampaio, António Feijó, eram alguns deles. O Conselheiro Luís Cipriano Coelho de Magalhães faleceu a 14 de Dezembro de 1935.[3]
A leitura da correspondência pessoal de Eça de Queirós dá-nos, entre outras informações que os seus biógrafos não deixarão de notar, uma interessante perspectiva sobre o lado mais intimista do escritor. Desta missiva que, em particular, aqui tratamos, se extrai também o facto do autor se sentir, nesta fase da sua vida, “desencantado” com as cidades de Lisboa e Porto, esta última considerada até, pelo próprio, “cada vez mais triste”:
Vim hoje de Moreira[2], onde tudo está forte, alegre e próspero. Amanhã, se Deus quiser, parto muito cedo para Sta. Cruz, devendo encontrar o Luís na estação de Recarei. O tempo enfim está benévolo. (…)
O cais desta estação ferroviária, que tão bem conhecemos, ter-se-á assim constituído como ponto de encontro entre duas ilustríssimas personalidades da cultura contemporânea portuguesa. Se já anteriormente falámos sobre Eça, importa também dedicar aqui umas breves linhas ao segundo interveniente.
Luís de Magalhães nasceu em Lisboa, a 13 de Setembro de 1859. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Notabilizou-se enquanto jornalista, escritor e poeta, tendo sido também deputado e ministro dos Negócios Estrangeiros num governo efémero liderado pelo conhecido estadista João Franco. Exerceu ainda o cargo de Governador Civil de Aveiro e fundou várias publicações periódicas. Era um monárquico convicto, tendo chegado mesmo a tomar parte do golpe militar conhecido na nossa História recente como “Monarquia do Norte”, ocorrido na cidade do Porto a 19 de Janeiro de 1919. Viveu em Moreira da Maia, tendo lá adquirido a Quinta do Mosteiro. Nesse mesmo local foram realizadas várias tertúlias onde participaram personalidades de relevo da cultura lusa e que faziam parte do núcleo de amizades do seu proprietário. Antero de Quental, Oliveira Martins, Magalhães Lima, Alberto Sampaio, António Feijó, eram alguns deles. O Conselheiro Luís Cipriano Coelho de Magalhães faleceu a 14 de Dezembro de 1935.[3]
A leitura da correspondência pessoal de Eça de Queirós dá-nos, entre outras informações que os seus biógrafos não deixarão de notar, uma interessante perspectiva sobre o lado mais intimista do escritor. Desta missiva que, em particular, aqui tratamos, se extrai também o facto do autor se sentir, nesta fase da sua vida, “desencantado” com as cidades de Lisboa e Porto, esta última considerada até, pelo próprio, “cada vez mais triste”:
Mas agora, faço tudo tão à pressa, no desejo de partir cedo para Paris que esta jornada toma o carácter de tarefa. Recebi hoje carta tua vinda de Lisboa. Não receies que eu na volta, querendo Deus, me prenda a Lisboa. É cidade que para mim perdeu o encanto – pelo menos desta vez. Pena tenho eu de não ter passado todas estas férias na província. Não no Porto, que é cada vez mais triste apesar da luz eléctrica.
________________________________________
[1] CASTILHO, Guilherme de, “Correspondência de Eça de Queirós”, Vol. II, p. 456, Biblioteca de Autores Portugueses.
[2] “Moreira da Maia, nos arredores do Porto, onde, na Quinta do Mosteiro, vivia Luís de Magalhães.” [cit.]
[3] Fontes: Wikipedia, Enciclopédia Online, Creative Commons, acesso a 11/09/2008; Portal de Cultura da Câmara Municipal da Maia, http://cultura.maiadigital.pt, acesso a 11/09/2008.
________________________________________
[1] CASTILHO, Guilherme de, “Correspondência de Eça de Queirós”, Vol. II, p. 456, Biblioteca de Autores Portugueses.
[2] “Moreira da Maia, nos arredores do Porto, onde, na Quinta do Mosteiro, vivia Luís de Magalhães.” [cit.]
[3] Fontes: Wikipedia, Enciclopédia Online, Creative Commons, acesso a 11/09/2008; Portal de Cultura da Câmara Municipal da Maia, http://cultura.maiadigital.pt, acesso a 11/09/2008.

0 comentários:
Enviar um comentário