8 de Fevereiro de 2009

Inéditos (III/2009)

Os frades do lugar da Costa

A Ordem não é rica… e os frades são poucos

Resta ainda um frade no lugar da Costa. Velho, solitário e frio sempre ignorado por quem passa. Lembremo-lo antes que lhe dêem o mesmo destino dado aos seus irmãos. Um martírio em prol do arranjo e da comodidade.
Contrariamente ao que possa pensar o leitor destas crónicas não nos estamos a referir aos frades em sentido monástico. Não há nem houve entre nós, que se saiba, qualquer membro de uma dada comunidade religiosa sujeita a uma regra. Referimo-nos, pois, a outro tipo de frades, também conhecidos ou designados em sentido depreciativo por fradépios.
A sua forma ou aparência terá estado na origem da designação. Trata-se de monólitos com o topo arredondado e com uma tira saliente em relevo a toda a volta, correspondendo a forma à idealização comum da imagem da cabeça de um frade religioso.
Estas singelas colunas graníticas eram outrora implantadas nas ruas, nos becos ou à entrada das casas, servindo para prender os animais, principalmente cavalos e gado bovino.
No lugar da Costa, no espaço envolvente à igreja matriz onde hoje só resta um exemplar, deveria haver vários. Até há bem pouco tempo havia pelo menos mais um, situado precisamente em frente à antiga sede do Vasco da Gama Futebol Clube de Recarei. Devem, por certo, ter tido presente aquele ditado popular que diz «Não cai o mosteiro por causa de um frade» e trataram de lhe dar destino certo: a destruição.
A centralidade que constitui, ainda hoje, aquele largo, vem de há muitos anos a esta parte. Desde finais de oitocentos e com maior incidência durante a primeira metade do séc. XX, por ali se foram estabelecendo diversos serviços de comércio e manufactura.
Vêm a exemplo os pequenos serviços, mercados e artífices, a maior parte deles identificados nas páginas 128 e 129 de Villa Recaredi (2008), onde figuram, entre muitos outros, os negociantes de gado, os vendedores de jornais, os alfaiates, as fábricas de cera e de cordas de linho, a farmácia e o posto do registo civil. Mais tarde – anos 30, 40 e 50 do séc. XX – surgiram os agentes bancários, os agentes de seguros, os merceeiros e o talho.
Não se torna por isso difícil reproduzir mentalmente o reboliço do lugar da Costa – por comparação apenas, obviamente, com outros lugares da freguesia - quando ali chegavam e partiam os aprovisionados carros de bois e respectivos almocreves.
Eram os tempos em que a locomoção das gentes se fazia sobretudo no dorso dos animais, tal como o fazia o médico que irregularmente prestava serviço à população e que para cá vinha montado no seu cavalo.
Justificava-se assim a implementação dos frades para estacionamento deste tipo de viaturas.
Com o passar dos tempos, aquela simples coluna que nos serve de pretexto para este artigo deixou de ter qualquer utilidade, a não ser o de testemunho de outras eras, de outro quotidiano, outra vida, outros meios e outras canseiras. É também destas e de outras pequenas coisas, que se alimenta a nossa História colectiva. E enquanto assim for, é nosso dever (de todos!) zelar pela sua divulgação e preservação.


1 comentários:

maria disse...

maria jose lobo:Em frente da "Casa da Loba"tambem havia 2 monólitos e o que sempre me foi contado é que o meu avo que comercializava farinhas, era nessas pedras onde se prendia as mulas que carregavam os produtos comercializados.As minhas memorias fazem-me recordar que 1 era entre a casa de familia e a velha sede do Vasco da Gama e o outro do lado oposto com a casa onde havia a loja do Sr.Antonio e o Tio Bernardino