As presúrias, na origem de Recarei?
Vem este artigo a propósito da ideia lançada em Villa Recaredi (2008) acerca da origem do macrotopónimo “Recarei”. Trata-se indubitavelmente, como escrevêramos, de um antro-topónimo de origem germânica que por sua vez atesta a longínqua apropriação destas terras por acção de um possuidor com o nome próprio “Recaredo”. Restará agora, face à falta de documentação suficientemente elucidativa, a difícil tarefa de situar essa apropriação territorial no específico enquadramento histórico-cronológico em que tal evento possa ter tido lugar.
Atendendo a que no nosso estudo monográfico esta abordagem fez parte de um capítulo genérico e introdutório, escrito apenas com o objectivo de enquadrar historicamente a região do Vale do Sousa na antiguidade, permitimo-nos agora aclarar um pouco mais esta temática, debruçando-nos sobre as remotíssimas origens deste espaço geográfico que se arvoraria em freguesia muitos séculos depois, em meados de oitocentos.
Reportemo-nos à alta idade média, mais concretamente ao séc. IX d.C. No ano de 868, sob reinado asturo-leonês de Afonso III, o nobre vassalo Vímara Peres desencadeia a famosa presúria[1] do Porto (Portucale) aproveitando uma conjuntura favorável às forças cristãs. A crónica Rotensis regista ainda e em jeito laudatório, para além da tomada de Portucale, a conquista da Anegiam (Anégia[2]), antigo topónimo de Eja, que acabaria por baptizar extensivamente toda a circunscrição territorial da actualmente designada região do Vale do Sousa.[3]
A partir do sucesso destas incursões a fronteira cristã avançava até à margem direita do Douro, reorganizando-se todo o território de Entre-Douro-e-Minho com o repovoamento de Braga, a fundação de Guimarães e ainda a realização de diversas presúrias em toda a província. Durante o século IX, as forças asturo-leonesas continuaram as suas acções para sul, acabando por controlar toda a vasta área territorial compreendida entre o rio Minho e o vale do Mondego. Nos últimos anos do séc. X esse largo domínio foi reduzido pelas vitoriosas investidas militares do líder mouro Almançor (Al-Mansur), que fariam retroceder a fronteira cristã de novo até à margem esquerda do Douro. Foi nesta altura, mais concretamente no ano de 995, que o chefe muçulmano tomara o nosso “vizinho” castelo de Aguiar de Sousa, como se vê por esta passagem: “Era MXXXIII Almanzor cepit Castellum de Aguilar quod est in ripa Sause in portugalensia provincia.”[4]
Voltando às presúrias propriamente ditas, são conhecidas por exemplo, por testemunho documental, a de Lardosa, um lugarejo da freguesia de Rans (Penafiel) e a de Negrelos (Guimarães).[5] Sobre a primeira lê-se na obra “Penafiel – Uma História de séculos, sempre verde, sempre jovem”[6] que os presores Zamora e Muzara (séc. IX) “declararam notarialmente que ipsa villa pró illa obtinuimus de presuria per suis locis et terminis antiquis, isto é, apareceram em nome do rei Asturiano e com ares de quem manda, ao toque de trombeta convocatória e à sombra duma nova bandeira [cum cornu et cun aluende de rege[7]] apossaram-se destas terras.”
Alberto Sampaio dá-nos ainda um bom exemplo de como, nesta época, era bastante comum a prática da substituição dos nomes das vilas: “A treze companheiros que pediram a Odoario [Bispo a quem foi confiada a restauração de Lugo e, posteriormente de Braga, onde falecera] una villa ex ipsis quas ipse prendiderat, deu-lhes unam villam prenominatam Villamarci, quam iuse prendiderat & dederat Marco sobrino suo, a quo nomen accepit Villamarce. Antes da aprehensão ela havia de ter um nome que o bispo substituiu pelo do sobrinho. Este facto não é singular nem acidental. Noutro documento Adoario conta que concedeu a seis dos seus homens as vilas, Avezani, Guntini, Desterit, Provecendi, Sendoni, Macedoni, e que as denominou pelos nomes deles, Avezano, Guntino, Desterigo, Provocendo, Sendo, Macedónio. Relativamente à primeira acrescenta uma frase que se não deve omitir – misimus ad eam nomen Avezani de nostra praesura, palavras muito significativas no seu laconismo; pois explicam a razão dos novos nomes; a tradição romana não se tinha obliterado: a imposição do novo nome pessoal seria como uma ficção jurídica, pela qual se julgaria, expungido o antigo, fundar a vila novamente.”[8]
Importa aqui citar ainda Oliveira Marques: “Efectivamente, em Portugal, os antro-topónimos de origem germânica suplantam, de longe, os de origem latino-cristã. Na sua maior parte remontarão ao período visigodo, mas as presúrias da Reconquista deram lugar a novos antro-topónimos desta proveniência.”[9] São frequentemente citados em estudos que versam a origem dos topónimos, vários exemplos de nomes de localidades portuguesas que poderão ter resultado do mesmo facto. Do concelho de Penafiel se extraem[10] os exemplos Uldilanis, que deu em Oldrões, Viliulfi em Guilhufe, Salemiri em Samil, entre outros, também os havendo, em bom número, na toponímia Paredense.
Os possuidores não deixavam a marca da sua posse somente em prédios agrícolas, sendo certa também a perpetuação onomástica “em montes, extensos territórios e monumentos pré-históricos”, como por exemplo mons gundemari, de Gondemaro, que resultou em Gondomar, ou ainda a mamola de Adaulfus, nome de antigo túmulo de Adaúlfo do qual não restaram quaisquer vestígios.[11]
Note-se que esta prática tão usual no período da Reconquista Cristã não configurava um costume propriamente novo. Como é sabido, já anteriormente, na época romana, era habitual a fundação ou reocupação das villae incutindo-lhes o nome do possuidor ou dominus.
Ora, mesmo jogando no arriscado campo das hipóteses devido à falta de testemunhos documentais explícitos, não podemos deixar de considerar que à semelhança dos exemplos anteriormente citados, as terras que constituem hoje a freguesia de Recarei possam ter sido tomadas neste contexto histórico por acção de uma presúria. Acaso assim tivesse ocorrido e estaríamos hoje a dedicar o nosso estudo a uma localidade outrora objecto de apropriação armada por parte de um presor asturo-leonês, que detinha o nome de origem germânica “Recaredo”. Porém, não temos como o comprovar.
É sabido que os presores chegavam às villas e tratavam de fundar aí pequenas igrejas ou capelas sendo que algumas delas conservam ainda o seu padroeiro original. Não é caso, todavia, de Recarei. Tudo indica que a primitiva capela de “Sancti Salvatoris de Requerey”, sem excluir a hipótese da existência de templos anteriormente fundados no local, foi erguida e consagrada a Cristo “Santo Salvador” sob égide do mosteiro de Paço de Sousa (cujo patrono é também Jesus Cristo sob epíteto de “Salvador”) que detinha então a posse de grande parte das propriedades agrícolas e infra-estruturais aqui existentes. Mas já nem isso chegaria aos nossos dias, sendo sabido que a actual padroeira de Recarei é Nossa Senhora do Bom Despacho.
____________________________________[1] Significa este termo “reivindicação ou reconquista à mão armada” por parte de um presor. (in Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. 23, p. 218.)
[2] “A civitas de Anégia implantava-se num pequeno esporão sobranceiro à confluência dos rios Tâmega e Douro. No seu local ergue-se hoje a Capela da Senhora da Cividade (freg. de Stª. Maria de Eja, conc. de Penafiel), que conserva um topónimo bem significativo (…)” in BARROCA, Mário Jorge - Fortificações e Povoamento no Norte de Portugal (Séc. IX a XI); PORTVGALIA Nova Série, Vol. XXV.
[3] BARROCA, Mário Jorge - Fortificações e Povoamento no Norte de Portugal (Séc. IX a XI); PORTVGALIA Nova Série, Vol. XXV.
[4] HERCULANO, Alexandre, Portugalie Monumenta Historica; Scriptores P. 9, Lisboa, Acad. Ciências, 1856
[5] PENAFIEL – Uma História de séculos, sempre verde, sempre jovem - ANÉGIA Editores, Abril de 1997.
[6] Idem
[7] HERCULANO, Alexandre, Portugaliae Monumentae Historica, Diplomata et Chartae nºs 5 e 6.
[8] SAMPAIO, Alberto, As Vilas do Norte de Portugal, Vol. I Colecção Estudos Económicos, Ed. Vega, Lisboa, 1979
[9] MARQUES, A. H. de Oliveira; SERRÃO, Joel – Nova História de Portugal, Vol. II, Editorial Presença.
[10] PENAFIEL – Uma História de séculos, sempre verde, sempre jovem - ANÉGIA Editores, Abril de 1997.
[11] SAMPAIO, Alberto, As Vilas do Norte de Portugal, Vol. I Colecção Estudos Económicos, Ed. Vega, Lisboa, 1979

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