8 de Março de 2009

Inéditos (V/2009)

O autor da réplica de locomotiva existente
na Estação de S. Bento (Porto)

Certamente que muitos recaredenses terão já passado pela gare da Estação de S. Bento, na cidade do Porto, e reparado na pequena réplica de uma antiga locomotiva a vapor com um vagão atrelado, colocada dentro de um expositor de vidro que, à introdução de uma moeda, movimenta as rodas e emite um sinal sonoro.
Aquilo que não será tanto do conhecimento geral é o curioso facto de essa locomotiva ter sido construída por um “mestre ferreiro” residente e natural de Recarei.
António Morais herdou do seu pai, Vitorino, a arte de trabalhar o ferro. A oficina onde Vitorino Morais fazia os seus trabalhos localizava-se na actual Rua de S. Lázaro, no lugar de Várzea desta freguesia. Entre as diversas peças que resultavam do seu labor diário destacavam-se os fogões e as alfaias agrícolas: foices, arados ou tão simplesmente pregos para as rodas dos outrora abundantemente usados carros de bois. Todos estes trabalhos eram realizados com matéria-prima comprada pelo artífice na cidade do Porto.
Acompanhando seu pai, António Morais tomou o pulso à actividade e especializou-se, também ele, naquela arte. Porém, por intercessão do Sr. Álvaro Gonçalves Pereira, inspector da CP e presidente da Junta de Freguesia de Recarei entre 1942 e 1950, viria a conseguir emprego nos caminhos-de-ferro.
Apresentou-se como conhecedor e experiente na arte de ferreiro, o que fez com que um engenheiro da empresa lhe confiasse uma tarefa específica. Entregara-lhe em papel um projecto de locomotiva para que, a partir dali, fosse feita uma réplica em miniatura.
Só o simples facto de o pedido ter vindo de um alto responsável da sua entidade empregadora, transformava desde logo aquela execução num fardo pesado. Todavia, António Morais não se negara a cumpri-la, e mesmo sentindo um certo e natural receio, estava determinado a não desiludir quem lhe havia confiado tal “empreitada”.
Num apelo à sabedoria e experiência de seu pai, pedira-lhe ajuda e conselhos para que a tarefa viesse a ser satisfeita da melhor forma possível.
Foi então apresentada ao engenheiro responsável uma elegante locomotiva em tons de castanho, com cerca de 1 metro e meio de comprimento, disposta sobre carris com um vagão de carvão em apenso, repleta de detalhes denotativos da minúcia, rigor e destreza empregues no trabalho feito.
Face a isso, o recaredense António Morais não só recebeu os maiores elogios por parte dos seus superiores hierárquicos como acabaria por ser distinguido com o “prémio” da passagem directa aos quadros daquela empresa. Refira-se que, em condições normais e para o operariado em geral dos caminhos-de-ferro, a passagem à efectividade demorava, na altura, vários anos a ser alcançada.
Posteriormente, à dita locomotiva foi acrescentado um mecanismo electrónico que lhe conferiu alguma animação e movimento.
Identificada como sendo propriedade do Grupo Desportivo dos Ferroviários de Campanhã, ela mantém-se ainda hoje em actividade numa das laterais de S. Bento, para gáudio da pequenada que lá vai introduzindo a moedinha na expectativa de admirar aquele singelo mas curioso efeito.

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Nota: As informações descritas no artigo chegaram até nós por testemunho da Sra. D. Maria de Fátima Morais, irmã do autor da referida réplica de locomotiva.

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