Orientação dos centros de culto
«O Sol simboliza o regresso do Senhor, o nascer do Sol definitivo da História. Rezar em direcção a Oriente significa: aproximar-se do Cristo vindouro.»
Podemos considerar, com elevado grau de certeza, que faz parte do conhecimento geral o facto das mesquitas islâmicas obedecerem a um determinado critério de posicionamento direccional. Pelo menos parece ser amplamente sabido que o povo muçulmano recita as suas preces prostrado na direcção de Meca, a sua cidade santa.
Torna-se porém curioso, que apesar da forte presença do catolicismo e da sua doutrina nos países ocidentais, seja por muitos desconhecida a histórica particularidade dos centros de culto da Igreja Católica Apostólica Romana terem tido, também eles e durante largo período da História, uma orientação física própria e plena de sentido.
Como pretexto para mais uma incursão diacrónica e possível relação dos factos históricos com a orientação das nossas capelas e igreja matriz, vejamos em seguida, como a posição dos edifícios consagrados ao culto religioso esteve, também no catolicismo, longe de ser arbitrária.
No paleocristianismo as igrejas eram construídas com a porta principal virada a oriente, celebrando o sacerdote tal como agora “voltado para o povo” e, por isso, para o lado do sol nascente “de onde nos veio o Senhor Jesus”[1]. A própria capela sistina no coração do Vaticano é um exemplo dessa disposição. Celebrando aí, o Papa encontra-se virado para Oriente, para o ponto do nascer do sol. Quer no rito sírio quer no oriental, prevalecia o hábito de também a assembleia ficar posicionada, tal como o celebrante, a nascente ou oriente.[2]
A partir do séc. IX no auge do culto às relíquias de santos foi necessário repensar a disposição do corpo da igreja. O objectivo era facultar uma melhor circulação dos fiéis em torno dessas mesmas relíquias e que, tradicionalmente, estavam colocadas sobre o altar, passando este a ocupar uma posição central e convergente na estrutura da nave.
Saindo progressivamente do centro do edifício a “mesa” foi depois transferida para a extremidade oriental. A partir daí foram-se desenvolvendo belos artifícios, ornamentos pictóricos e esculturais que resultaram no surgimento do retábulo (lat. retro tabula). Não tardou a que nele fosse engastado o sacrário e ao qual se lhe sobrepunha a banqueta para exposição do Santíssimo.
Afirma-se que esta alteração do local do altar, não obstante a interpretação conferida à luz de outros conceitos, tem origens pagãs, obedecendo ao costume de, nos templos de deuses imortais, ser cumprida a norma de se colocar a imagem sagrada virada a ocidente, para que no acto da imolação ou sacrifício se pudesse olhar na direcção do Oriente e simultaneamente da imagem divina ali colocada. [3]
Todavia, à luz da doutrina cristã, sendo o sol símbolo de Jesus Cristo, dever-se-ia orientar o culto para o ponto do nascer do dia, para a aurora da nova vida, vitória da luz sobre a treva nocturna. Citando o então cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, “o Sol simboliza o regresso do Senhor, o nascer do Sol definitivo da História. Rezar em direcção a Oriente significa: aproximar-se do Cristo vindouro.”[4]
Esse costume não era todavia generalizado e parece não ter sido seguido ou atendido, por exemplo, na edificação das igrejas de Roma[5]. Daí que do Concílio de Trento (séc. XVI) sairiam algumas determinações que visavam a normalização da celebração litúrgica, nomeadamente quanto à posição do sacerdote na eucaristia.
Passou este a celebrar “versus Deum”, voltado para Deus, para oriente e de costas para o povo. Sobre isto escreveu o Pe. Abílio Faria na obra “Barcelinhos à entrada do 3º milénio” que nem sequer seria sentida a necessidade da posição “versus populum” pois os ritos eram celebrados em latim, língua que não era do entendimento da larga maioria dos fiéis.
Era no dealbar do dia que se rezava a santa missa segundo o rito tridentino: “A primeira luz do dia participava na liturgia, através da fresta aberta na parede testeira da ousia, inundando o altar e o sancta sanctorum, o “santo dos santos”, face à penumbra que envolvia a assembleia”[6].
Na década de 60 do séc. XX, em resultado do Concílio Vaticano II, houve no seio de medidas ou determinações reformadoras um certo retorno às origens. A renovação das regras litúrgicas ditou que o sacerdote passasse novamente a celebrar voltado para a assembleia. Porém, a grande inovação foi a transposição linguística dos santos ofícios, até aqui em latim, para o idioma vernáculo de cada país. Quanto à orientação dos templos que aqui mais nos interessa, o principal documento sobre liturgia resultante desse Concílio - Sacrosanctum Concilium - nada determinou pelo que o costume deixou de ser aplicado.
As capelas de Santa Catarina (Bustelo) e do Senhor do Padrão (Terronhas) estão ambas com o altar na extremidade ocidental, e o inverso acontece com a igreja matriz, onde o povo se dispõe na nave “voltado a Oriente”. As ermidas fundadas respectivamente no séc. XVII e XVIII são ambas de iniciativa popular, sendo de crer que os moradores dos dois lugares não tenham atendido à regra ou tradição quanto à particularidade da sua disposição física.
Já a igreja paroquial, apesar de contemporânea, terá chegado aos nossos dias obedecendo à estrutura plurissecular dos templos que desde o séc. XII ou XIII lhe precederam nesse mesmo local. Ou seja, nesta última, o povo esteve sempre “versus Deum”, voltado para o “novo Sol, a nova vida, que é Jesus Cristo”.
São muitos, à nossa volta, os centros de culto com o altar posicionado a nascente. Assim se acha a igreja de Sobreira (igreja velha), a Capela de Santa Comba, a igreja de Parada de Todeia, o Mosteiro de Paço de Sousa, as igrejas de S. Martinho de Campo, de Mouriz, de Fonte Arcada, de Sobrado… enfim, um vasto número de templos, a que por motivos óbvios devemos juntar a Sé Mãe da Diocese, a Catedral do Porto, também ela com o altar na extremidade oriental.
Interior da Igreja Paroquial de Recarei.
________________________________________[1] FARIA, Abílio Mariz de (Pe.) - Barcelinhos à entrada do 3º milénio
[2] ROQUE, Maria Isabel Rocha – Altar Cristão, Evolução até à Reforma Católica, Univ. Lusíada, Lisboa 2004, p. 34
[3] Idem.
[4] RATZINGER, Joseph – Introdução ao espírito da Liturgia, Ed. Paulinas, 2001
[5] ALDAZÁBAL, José – Dicionário Elementar de Liturgia, Ed. Paulinas, 2007
[6] ROQUE, Maria Isabel Rocha – Altar Cristão, Evolução até à Reforma Católica, Univ. Lusíada, Lisboa 2004, p. 146

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