Foi há 25 anos…
Quando o ponteiro do relógio pouco passava das 7h30m do dia 26 de Abril de 1984, um violento e inesperado estrondo seguido de um ruidoso ranger de ferro e de gritos de desespero, tomou conta da serena ambiência campestre que envolvia a passagem de nível do lugar da Ribeira desta freguesia de Recarei.
Tal rude miscelânea de sons inimagináveis e inesperados, anunciavam ao alvorecer, um dos mais trágicos acidentes rodoferroviários de sempre do nosso país. Um facto histórico tristemente guardado na memória da população local, principalmente na das famílias daqueles a quem este infortúnio ceifara a vida.
A CP, de acordo com a imprensa, costumava desdobrar, nos dias seguintes aos domingos e feriados, alguns serviços diários de transporte de passageiros, disponibilizando automotoras e carruagens complementares, circulando estas com um atraso de alguns minutos relativamente aos comboios de itinerário regular.
Assim, naquela manhã primaveril, a automotora eléctrica de composição dupla com o nº 86122 proveniente da Régua com destino ao Porto, e que deveria chegar à Estação de Campanhã às 8h05m, circulava com um atraso de cerca de 6 minutos. À sua frente, seguia o comboio de serviço regular, havendo entre ambos um intervalo de 10 minutos.
À passagem do primeiro comboio nada de anormal se verificou. As cancelas foram descidas e o tráfego automóvel devidamente interrompido. Dez minutos depois dava-se a triste fatalidade.
Ao encontro de um destino bem pior do que aquele que a tabela horária determinava, um autocarro da empresa de transportes “Alpendorada” fazia nesse dia, como era hábito, a carreira diária Capela (Penafiel) - Porto, passando entre outras pelas terras de Sobreira e de Recarei do concelho de Paredes, recolhendo no seu percurso não só homens e mulheres a caminho dos respectivos empregos, como também alguns jovens e crianças.
Dois dos passageiros iniciais eram pai e filho. Viajavam juntos até que se separaram quando o veículo cumpriu a paragem habitual junto à estação ferroviária de Recarei-Sobreira. O pai tomara a automotora na estação, o filho seguiu no autocarro. Encontrar-se-iam tragicamente alguns quilómetros mais adiante. O pai ia no comboio que ceifou a vida do seu próprio filho.
Na origem do sinistro terá estado, de acordo com a imprensa, a incúria da responsável pela passagem de nível que ali trabalhava, em regime de substituição, há apenas alguns meses. Isto porque a guarda efectiva se encontrava de folga, tanto naquele dia como no anterior. Depois da passagem do comboio regular, as cancelas foram levantadas e não voltaram a fechar, tendo a automotora prosseguido a sua marcha a grande velocidade, indo inevitavelmente de encontro ao autocarro que naquele preciso instante passava sobre os carris.
Importa referir que a própria morfologia dos terrenos e a densidade das matas circundantes impediam que quem circulasse na rodovia pudesse de alguma forma se aperceber ou ter o mínimo de visibilidade relativamente à aproximação de comboios que seguissem em direcção ao Porto.
Assim, avançando sem nada que lhe obstruísse a travessia, o veículo apinhado de gente fora colhido pela automotora e arrastado por cerca de 200 a 300 metros. Quem seguia no comboio não sofreu sequer um arranhão, e mesmo na própria máquina foram diminutos os danos materiais que a colisão causara. Já o autocarro ficara praticamente desfeito, tendo a tripulação – motorista e cobrador – ficado entre as vítimas mortais do sucedido.
Apesar dos primeiros rumores e das primeiras notícias terem apontado para um número de mortos muito superior, a verdade é que dos 51 ocupantes da camioneta foram em número de 17 os que acabaram por falecer. Alguns pereceram de imediato, outros a caminho do hospital, e outros houve que chegados à unidade de saúde não resistiriam aí por muito tempo à gravidade dos ferimentos.
Dos que perderam a vida, quatro eram desta localidade: Maria Alice Silva Dias (12 anos de idade); Alexandrina Moreira dos Santos (60 anos); Ana Paula Lobo da Silva (15 anos) e Teresa da Conceição de Abreu e Silva (55 anos).
Alguns dos que sobreviveram à tragédia carregam ainda hoje o pesado fardo das mazelas físicas que nunca sararam completamente. Da mesma forma que o tempo não terá apagado da sua memória os inenarráveis momentos por que passaram naquela manhã.
A generosidade típica dos portugueses que sempre se manifesta em alturas como esta, levou muita gente a formar filas no Hospital de S. João com o objectivo de dar sangue, correspondendo assim aos apelos que foram lançados publicamente logo que surgiram as primeiras notícias do acidente.
Estando, sem sombra de dúvidas, entre as mais graves ocorrências do chamado “martirológio” da via-férrea do nosso país, o acidente de Recarei, ocorrido a 26 de Abril de 1984, surgiu depois de vários outros casos de descarrilamentos, choques e atropelamentos que até então tinham causado dezenas e até centenas de vítimas mortais em várias zonas do país. Citemos, por exemplo, a tragédia de Custóias, ocorrida na noite de 26 de Julho de 1964, quando um descarrilamento de uma carruagem fê-la embater contra os pilares de um viaduto, roubando a vida a 91 pessoas. Houve ainda os casos de Lamarosa (Coimbra) e o de Santa Clara de Sabóia (Alentejo), registando-se em ambas as situações à volta de uma centena de mortos. Na linha do Estoril, em 1952, um desabamento de terras sobre a linha ferroviária provocara um acidente do qual resultaram 52 vítimas.
Apesar destes e de outros acidentes terem ficado na História pelos mais nefastos motivos, o transporte ferroviário continuava - e continua talvez - a ser, o que causa menor número de vítimas no nosso país.
Se este abrupto acontecimento de há 25 anos atrás não veio lançar a definitiva discussão e despertar consciências para a problemática das passagens de nível ao longo da nossa rede de vias-férreas, deu-lhe pelo menos maior visibilidade e expressão, causando grande impacto mediático e dando origem, por arrastamento, a um grande debate na opinião pública e nos órgãos políticos e decisórios do nosso país.
Não obstante isso, aquela passagem como tantas outras, manter-se-ia a funcionar da mesma forma – considerando apenas a posterior substituição das cancelas de funcionamento manual pelas de mecanismo automático – até meados da década de 90, altura em que a REFER, na sequência das obras de duplicação e electrificação da Linha do Douro decidiu construir no local uma travessia superior para o tráfego automóvel.
No dia seguinte à tragédia o “Jornal de Notícias” publicava numa das páginas que davam conta deste fatal acontecimento, um pequeno poema intitulado “Mochila Tinta de Sangue”, assinado simplesmente pelas iniciais “M. P.”:
Mochila verde
manchada de sangue
que ficaste trilhada
entre ferros e estofos
semi-recheada ainda
com uma marmita traçada a meio
- que é feito de quem te carregou?
Aí esquecida
entre indecifráveis destroços
acompanhada apenas
de dois sapatitos vazios de criança
permanece
na tragédia que de ti emana
a última homenagem de um operário
que disse adeus em casa
e afinal à vida.
Mochila verde
tinta de sangue
não me vais dizer que foi o fado,
triste embora
que assim quis
Porque não foi, não.
Numa das bermas da EN 15-3, junto ao local do desastre, foi erigido um singelo monumento em tudo semelhante a uma laje sepulcral, na qual se evoca a tragédia ali ocorrida e se pede uma oração pelas vítimas. Familiares e amigos dos que ali pereceram, não deixam de lhes prestar homenagem naquele pequeno memorial de pedra branca, deixando no local um ramo de flores ou acendendo, de quando em vez, uma vela pelas suas almas.
Todavia, o monumento carece objectivamente de uma intervenção que lhe restitua a dignidade que já teve e que merece continuar a ter. Está, pois, hoje semi-ocultado pela aspereza e verdura de um silvado alto, e a necessitar de uma franca melhoria no que a acessos diz respeito.[i]

O Comércio do Porto (27/04/1984)
Jornal de Notícias (27/04/1984)
O Primeiro de Janeiro (27/04/1984)
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[i] Fontes de pesquisa: Jornais “O Comércio do Porto”, “Jornal de Notícias” e “O Primeiro de Janeiro”, edições de 27/04/1987.

1 comentários:
Olá camarada:Só uma pequena rectificação no 4º paragrafo.Não hera uma unidade eléctrica mas sim uma UDD(unidade dupla diesel).Juvilte
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