31 de Maio de 2009

Inéditos (XI/2009)

Recarei no Paleozóico

Na sua valorosíssima “Monografia de Paredes” o Dr. José do Barreiro deixou-nos o seguinte “aviso”: “Em Recarei há um jazigo de fosseis animaes e vegetaes. Ao poente de Recarei, terreno silúrico inferior.”[1] Tal oportuna indicação, trazida a público pela primeira vez pela citada obra nas primeiras décadas do século XX, não terá, infelizmente, por si só motivado a realização de qualquer levantamento no local.
A inexistência de publicações ou de quaisquer outras iniciativas sobre o assunto que incidissem particularmente sobre os locais onde está hoje implantado o concelho de Paredes, contrasta de sobremaneira com a atenção que desde há vários anos o vizinho concelho de Valongo tem sabido dar a esta vertente científica do conhecimento.
Tal atenção não só tem dado frutos no âmbito académico, científico e/ou historiográfico como tem também sido um importante factor de desenvolvimento noutras áreas. A Câmara Municipal de Valongo, juntamente com o Departamento de Geologia da Fac. de Ciências da Universidade do Porto, idealizou em 1995, um projecto que fora co-financiado pela Comissão Europeia e que muito tem contribuído para o enriquecimento cultural e turístico do concelho valonguense: o Parque Paleozóico de Valongo.
É no lugar de Bustelo, ao poente da freguesia de Recarei - comprovando assim a veracidade da indicação que nos deixara o Dr. José do Barreiro - que têm vindo a ser encontrados vários organismos fossilizados da era paleozóica.
Foi aí que, com a prestimosa colaboração do Prof. José Bento, pudemos fotografar alguns exemplares de fósseis por si encontrados ao longo dos últimos anos. Foi também nesse lugar que ouvimos vários relatos de agricultores que, nas suas costumeiras lides da lavoura, lá têm vindo a reparar nas fissuras incomuns que de quando em vez aparecem gravadas na pedra. Alguns desses fósseis foram guardados, outros desprezados.
A ciência permite hoje datar, com grande precisão, a idade destes vestígios orgânicos, bem como a identificação rigorosa da sua tipologia, cujo formato anatómico o tempo não apagara das rochas de tipo sedimentar. Não cabendo a nós tal tarefa mas antes dar conta do resultado do nosso levantamento ou trabalho de campo, deixaremos aqui, todavia, umas breves considerações genéricas na esperança de que sirvam, de alguma forma, de apoio à leitura e interpretação das fotografias anexas.
A maior parte dos fósseis recolhidos e por nós documentados dizem respeito a trilobites: organismos marinhos, apesar de tudo, bastante comuns. A sua designação resulta, como facilmente se constatará, do facto de apresentarem um corpo longitudinalmente constituído por três lobos: o central ou axial, e os dois laterais ou pleurais.
É necessário recuar ao período Câmbrico, ou seja, há 570 milhões de anos atrás, para melhor compreendermos o meio ambiente no qual viveram as espécies animais e vegetais das quais hoje encontramos vestígios.
Por essa altura toda a região onde assenta a freguesia de Recarei e limítrofes estava submersa pelas águas do mar. Nos fundos marinhos de então foram-se depositando todo um conjunto de sedimentos, designadamente xistos, grauvaques, quartzitos e conglomerados, conjunto esse designado por “complexo xisto-grauváquico” deixado a descoberto há 500 milhões de anos quando o mar entrara numa marcha de recuo lento.
No início do Ordovícico as águas voltaram a avançar sobre a linha de costa, depositando por cima do dito complexo outros tipos de sedimentos que normalmente vemos hoje nas praias (seixos, por ex.). Com esse avanço e consequente aumento de uma profundidade que não era inicialmente muito significativa, os finos sedimentos que agora se acumulavam no fundo do mar viriam a dar origem às ardósias bem como às outras rochas xistosas que presentemente desenham a paisagem geomorfológica que nos rodeia. Foi maioritariamente nessas rochas sedimentares que ficaram as marcas ou testemunhos da existência de várias espécies entretanto desaparecidas.
O mar terá tido maior profundidade durante o silúrico (435-395 milhões de anos), tendo posteriormente recuado e deixado toda esta área a descoberto. Com a actuação do movimento tectónico formara-se uma dobra com quilómetros de extensão designada por “anticlinal de Valongo”.
Verificando-se novo recuo das águas, a sudoeste desta dobra formara-se há 290 milhões de anos, uma vasta bacia continental, em cujas margens se dera um importante desenvolvimento da flora e no seu fundo assentara uma jazida fossilífera de natureza sobretudo vegetal.
De entre a tipologia de seres que então povoavam o planeta descobriram-se na forma fossilizada e nesta região as trilobites, os graptólitos, gastrópodes, cefalópodes, bivalves, cistóides, crinóides, briozoários, peixes, entre outros. Dos artrópodes marinhos dominantes no período Ordovícico – trilobites – ficaram não só as suas articulações anatómicas como o rasto da sua locomoção – cruzianas – perpetuadas sobretudo em quartzitos. A sua extinção terá ocorrido na fase final do período Paleozóico.
Estão identificadas milhares de subespécies diferentes de trilobites, sendo que, na nossa região, são frequentemente encontradas as seguintes: Placoparia, Ectillaenus, Neseuretus, Colpocoryphe, Salterocoryphe, Nobiliasaphus, Eodalmanitina e Dionide. Mais raros são: Eoharpes, Selenopeltis, Uralichas e Valongia.
[2]
Feita esta resumida e superficial viagem pelos remotíssimos períodos da vida na Terra, vejamos agora algumas fotografias de fósseis encontrados no lugar de Bustelo desta freguesia de Recarei.[i]

Foto 1 – Fóssil de Trilobite. Espécie: Neseuretus tristani?

Foto 2 – Fóssil de Trilobite. Espécie: Ectillaenus benignensis?

Foto 3 – Fóssil de Trilobite. Espécie: Neseuretus tristani?

Foto 4 – Fóssil de Trilobite. Espécie: Neseuretus tristani?


Foto 5 – Após cuidadosas remoções das camadas de pedra, o achado desponta, distinguindo-se claramente do que o rodeia. Trilobite. Espécie: Neseuretus tristani?

Foto 6 – Cuidadosa remoção. A fragilidade da ardósia dificulta a tarefa. Trilobite.

Foto 7 – O fóssil de trilobite retirado do local onde esteve durante milhões de anos.



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[1] BARREIRO, José do; Monografia de Paredes. Tipografia Mendonça, 1922. P. 155
[2] SILVA, João; GOMES, Catarina; COSTA, J. C.; Valongo – um salto para a modernidade; ANÉGIA Editores;
e PARQUE PALEOZÓICO DE VALONGO [em linha], http://www.paleozoicovalongo.com/local.swf, acesso a 17/05/2009.
[i] Os fósseis das fotografias nº 1, 2, 3 e 4, pertencem ao Prof. José Bento. O das fotografias nº 5, 6 e 7, pertence a Ivo Rafael Silva.

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