3 de Maio de 2009

Inéditos (IX/2009)

Mons. Pe. Adriano Moreira Martins:
Breves notas para uma biografia


«Na imponência da sua figura, na força da sua palavra, na firmeza do seu carácter, no aprumo do seu porte estava um sacerdote carismático que honrou o clero do Porto e deixou “órfãos” todos os que, de lágrimas nos olhos, o acompanharam na última viagem até ao cemitério da sua terra natal.»

Encontra-se ainda por fazer uma completa, rigorosa, aprofundada e tão pormenorizada quanto possível biografia do nosso ilustre conterrâneo Monsenhor Padre Adriano Moreira Martins, abade de Santo Ildefonso (Porto). Se é que tal é possível, um trabalho biográfico que esteja ao nível do que a personalidade a visar merece, e a quem, no entanto, já dedicáramos umas breves linhas na obra Villa Recaredi (2008) ao abordarmos, sintetizadamente, a vida e a obra do clero residente e/ou natural desta localidade.
Não importa por isso repetir aqui as informações constantes do texto anteriormente publicado. Interessa-nos antes acrescentar alguns dados decorrentes do nosso contínuo estudo e que se configurem de boa utilidade para trabalhos futuros.
Na edição de 4 de Fevereiro de 2009 do semanário “Voz Portucalense”, jornal oficial da Diocese do Porto, João Alves Dias deixou-nos um curioso testemunho acerca de quem, aliás, conhecera pessoalmente: "O Padre Adriano cultivou, durante toda a vida, a austeridade e a honradez que bebeu no seio de uma família, muito estimada, em Terronhas, Recarei, onde nasceu em 1881. Na imponência da sua figura, na força da sua palavra, na firmeza do seu carácter, no aprumo do seu porte estava um sacerdote carismático que honrou o clero do Porto e deixou «órfãos» todos os que, de lágrimas nos olhos, o acompanharam na última viagem até ao cemitério da sua terra natal. A seu respeito, recordo o que me dizia um monge beneditino «sempre questionei a obediência, mas sempre obedeci». Nem sempre estava de acordo com as orientações do Prelado da Diocese, mas sempre obedeceu. À firmeza das suas convicções aliava a finura de um humor sempre oportuno e, por vezes, irónico. Num certo dia, veio ao escritório paroquial uma senhora que, com uma roupa muito jovem e o rosto muito polvilhado de pó de arroz, procurava disfarçar os anos que já ia contando. Enquanto falava com o coadjutor, o senhor Abade observava-a de alto a baixo. Quando a senhora saiu, perguntou ao seu colaborador: «Que lhe pareceu esta senhora?» - «Boa pessoa mas, coitada, um pouco ridícula a querer passar por nova». – «Pois é, responde o senhor Abade, era a figura que eu fazia se fosse adoptar os seus métodos pastorais». A melhor forma que tenho para o caracterizar é atribuir-lhe o que Jesus disse a respeito de Natanael «Eis um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade» (Jo. 1,47)."[1]
Escrevera ainda, o mesmo autor, que o Pe. Adriano Martins não gostava de dar a Sagrada Comunhão a senhoras com os lábios pintados. Justificava-o dizendo, com o sentido de humor que lhe era característico, que “Nosso Senhor não gosta de entrar em casas pintadas de fresco”.[2]
Era-lhe reconhecida a devoção e admiração por S. Francisco de Sales, que seria de resto “o seu modelo na eloquência, na tenacidade, na coragem, na verticalidade”[3]. Na sua paróquia era pois costume assinalar-se o seu dia litúrgico (24 de Janeiro) com a celebração de eucaristia solene.
Antes de enveredar pelo caminho do sacerdócio e durante os anos de frequência escolar no Colégio de Penafiel, Adriano Moreira Martins teve como condiscípulo alguém que viria a tornar-se numa notabilíssima personalidade da nossa política, da nossa sociedade e da cultura contemporânea portuguesa: Leonardo Coimbra. Um insigne filósofo, professor e político português que chegara a ocupar o cargo de Ministro da Instrução Pública.
Um curioso episódio sobre ambos é-nos narrado por Pinharanda Gomes
[4]: sendo pároco de Santo Ildefonso, coube assim ao Pe. Adriano organizar o processo de casamento do seu antigo condiscípulo, Leonardo, com a sua paroquiana, Maria Amélia. Porém, “a pressa com que tudo se processou, por causa da dispensa das proclamas, fez com que o Padre Adriano, em vez de levar do Cartório Paroquial o Livro de Casamentos, levasse o de Óbitos. Por isso que o registo do casamento foi lançado no Livro de Óbitos, mais tarde sendo feito o traslado para o Livro de Assentos de Matrimónio onde se acha, a páginas 57 do ano de 1935.”[5]
O Pe. Adriano Moreira Martins recebera o título de Monsenhor em 1964 e falecera três anos depois. Descansa em campa rasa, de traço simples, sem ornamentos esculturais, no cemitério da sua terra natal, com a seguinte frase gravada aos pés da pedra tumular: “Aqui espero o dia do juízo final”.

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[1] DIAS, João Alves in “Voz Portucalense”, Semanário oficial da Diocese do Porto, Edição de 4 de Fevereiro de 2009.
[2] DIAS, João Alves in Blogue “O Tanoeiro da Ribeira” (http://tanoeiro.blogspot.com), acesso 01/02/2009.
[3] Idem.
[4] GOMES, Pinharanda; “O Santo Padre Cruz e a Conversão de Leonardo Coimbra” (Prática introdutória à missa vespertina do XXXII Dom. do Tempo Comum - 5 de Nov., celebrada na Capela dos Pestanas, na Rua Gonçalo Cristóvão nº 373, Porto, sufragando as almas de Leonardo Coimbra e dos seus discípulos já falecidos). In “As Linhas Míticas do Pensamento Português”, Colecção Lusíada – Colóquios, Fundação Lusíada, Lisboa, 1995.
[5] Idem, p. 131.

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