Um herói de Madina do Boé
“Nós rendemos homenagem aos ocupantes de Madina, porque era muito difícil viver naquelas circunstâncias. Sempre à espera dos bombardeamentos, em horas alternadas, às vezes à meia-noite, às vezes ao meio-dia, às vezes no período da tarde, tantas vezes que ninguém pode imaginar aquele sacrifício”
A Companhia de Caçadores 1790, formara-se no Regimento de Infantaria nº15, em Tomar, tendo sido integrada no Batalhão de Caçadores 1933.[1] Rumo ao ultramar português, cumprida que fora a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional no campo militar de Santa Margarida, a companhia partira do Cais da Rocha do Conde de Óbidos, Lisboa, no navio “Timor” a 27 de Setembro de 1967, chegando à então província portuguesa da Guiné no dia 3 de Outubro seguinte. [2]Entre esse grupo de homens, a caminho de um cenário de guerra que se revelaria muito pior do aquilo que alguma vez puderiam imaginar, estava o soldado recaredense José da Silva Coelho, nascido no lugar da Costa desta freguesia, a 11 de Novembro de 1946.
A 8 de Janeiro de 1968[3], a companhia da qual José Coelho fazia parte, assumira a responsabilidade pelo subsector de Madina do Boé, uma localidade bastante afastada de qualquer centro urbano, situada no leste da Guiné a poucas dezenas de quilómetros da fronteira com a Conacry. Tinha assim início uma missão de extrema dificuldade para os militares nela envolvidos, a tal ponto destes terem sido reconhecidos posteriormente - quer por operacionais das tropas “da metrópole” quer pelos guerrilheiros - como verdadeiros “heróis”[4].
A companhia 1790 passara treze longos meses debaixo dos ataques permanentes das forças do PAIGC. A própria morfologia do terreno favorecia grandemente as posições das forças independentistas, que faziam fogo a partir das elevações montanhosas que circundavam o aquartelamento. A “torre de vigia” do PAIGC, era o monte Dongol Dandum, local de vegetação densa propícia à criação de esconderijos, e onde se posicionavam os “invisíveis” franco atiradores, estrategicamente situados em locais de visibilidade privilegiada.
O então capitão e hoje general Almeida Bruno, na altura ajudante de campo de António de Spínola, prestara num documentário televisivo[5] de uma forma comovente e bastante elucidativa, a sua homenagem aos “bravos” de Madina: “Quero aqui prestar uma homenagem – a minha homenagem pessoal, como comandante que fui – a todos os militares, oficiais sargentos e praças, que viveram e combateram em Madina, que, com uma coragem notável, resistiram não só ao adversário, ao inimigo, como às condições adversas em que viveram. E julgo que um dia a história vai fazer dos militares que viveram em Madina o exemplo típico do soldado português, que é verdadeiramente de excepção.”
No mesmo sentido, foram as palavras dos próprios dirigentes do PAIGC, que bombardeavam constantemente o quartel. O coronel Aliú Camará, ex-comandante da unidade de artilharia, referiu no mesmo documentário: “Nós rendemos homenagem aos ocupantes de Madina, porque era muito difícil viver naquelas circunstâncias. Sempre à espera dos bombardeamentos, em horas alternadas, às vezes à meia-noite, às vezes ao meio-dia, às vezes no período da tarde, tantas vezes que ninguém pode imaginar aquele sacrifício”.[6]
A chegada de António de Spínola à Guiné, significaria, aparte o imprevisto destino trágico ocorrido na travessia do Corubal, um grande alívio para aqueles bravos combatentes da guarnição de Madina do Boé. O general, ordenara a retirada das tropas da localidade, tendo o Comandante de sector, Hélio Felgas, concebido o plano da operação baptizada com o nome de “Mabecos Bravios”. A movimentação começou com saída de um contingente de Nova Lamego para Madina, com o objectivo de apoiar a retirada das companhias sitiadas.[7]
Essa grande operação militar, acompanhada pelo próprio Brigadeiro António de Spínola, com centenas de homens e mais de 50 viaturas, percorreu cerca de 30 quilómetros até à localidade de Cheche, na margem sul do Rio Corubal. Aí chegados e sem incidentes a registar, a operação prosseguiu de imediato, sendo então necessário fazer transportar homens, viaturas e demais material para a outra margem. Para tal, recorreram a duas jangadas, que se moviam à força de um barco a motor, cada uma delas constituída por uma plataforma de madeira, flutuando sobre bidões e três pirogas.[8]
Depois de dezenas de travessias realizadas ininterruptamente durante toda a noite, a meio da manhã do dia 6 de Fevereiro de 1969, esperava-se já aquele que seria o último grupo de homens a transpor as lentas e profundas águas do Corubal.
Eram à volta de cento e vinte militares, formando quatro batalhões de duas companhias: a CCaç 2405 e a CCaç 1790. Era a esta última que pertencia o recaredense José da Silva Coelho, e que era comandada pelo hoje Tenente-coronel, José Aparício.
Quando a jangada ia sensivelmente a meio do rio, ter-se-ão ouvido alguns disparos de morteiro, o que terá motivado o condutor do barco a acelerar subitamente, provocando o consequente balanço da jangada, e a queda de vários homens às águas do Corubal. Quem o afirma na primeira pessoa no documentário de Joaquim Furtado é o próprio Comandante José Aparício, versão que contrapõe, de resto, os testemunhos de outros militares de chefia e não só, envolvidos naquela trágica operação.
Nesse mesmo registo vídeo, transmitido recentemente pela RTP, o Coronel Hélio Felgas negou a existência de qualquer disparo de morteiro, dizendo até que “não houve nem poderia haver”, pela simples razão de que havia meios aéreos a sobrevoar a zona e num dos quais estava, inclusivamente, o Brigadeiro António de Spínola. Esta opinião é também partilhada pelo Alferes Miliciano Paulo Lage Raposo, que atribui a causa do sucedido à sobrelotação da jangada. Diz ainda o mesmo alferes que tal enchente se deveu à pressa de alguns oficiais em querer fazer uma derradeira travessia. A lenta transposição de margem a margem, já se havia arrastado por muitas horas, o que provocara, naturalmente, grande desgaste e impaciência entre as tropas.
Dos muitos que acabaram por cair à água, alguns houve que conseguiram nadar até à margem ou regressar à jangada, enquanto outros foram atempadamente salvos pelos seus corajosos camaradas. Porém, desses militares, foram em número de 47 os que perderam a vida. Entre os malogrados, estava o jovem recaredense, José da Silva Coelho.
O rápido desaparecimento destes homens ter-se-á devido “ao facto de todos transportarem consigo pesado equipamento de guerra que lhes tolheu os movimentos e os conduziu para o fundo do rio, de forma tão rápida, com a agravante de que a maior parte deles não sabia nadar” [9].
Duas semanas depois, numa operação pensada para o efeito, alguns dos corpos foram recolhidos e sepultados nas margens com direito a honras militares.[10]
Num testemunho emocionado, o Coronel Hélio Felgas deixou expresso o seu estado de espírito face a este trágico acontecimento: “Quando o general Spínola deixou o helicóptero e foi ter comigo, eu estava a chorar. Porque realmente pareceu-me injusto que homens que tanto tinham sofrido, que militarmente haviam sido uns heróis, acabassem por morrer afogados”[11].
Aqui fica o excerto do Episódio 12 (segunda série) do documentário A GUERRA de Joaquim Furtado, RTP, e que aborda a tragédia que descrevemos neste artigo.
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[1] MARTINS, José S. M.; textos publicados no website Guerra do Ultramar: Angola, Guiné e Moçambique, http://ultramar.terraweb.biz/index_josemartins_memorias_liga_combatentes.htm, acesso a 20/05/2009.
[2] DÂMASO, Eduardo (1996). Os sobreviventes do Rio Corubal. Revista Pública.
[3] Vide nota 1
[4] A expressão que caracteriza esses militares é do próprio brigadeiro Hélio Felgas, reproduzida no documentário Madina do Boé – A retirada, da autoria de José Manuel Saraiva, produção Quimera do Ouro, 1995.
[5] Documentário (vídeo) Madina do Boé – A retirada; José Manuel Saraiva; produção Quimera do Ouro, 1995.
[6] Vide nota 1
[7] Documentário (vídeo) A Guerra – 12º Episódio, 2ª série; Joaquim Furtado; RTP, 2009.
[8] Idem.
[9] FELÍCIO, Rui in Blogue Luís Graça & Companheiros da Guiné, endereço Web http://blogueforanada.blogspot.com/2006/02/guin-6374-dxxvi-o-desastre-do-cheche.html, acesso 31/05/2009.
[10] Vide nota 7.
[11] Vide nota 5.

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