Fernando Moreira: a queda de um combatente
Escrevêramos em «Villa Recaredi» (2008), partindo das indicações e documentos que dispúnhamos, que o ex-combatente recaredense Fernando Moreira, nascido no lugar do Outeiro, Recarei, a 24 de Dezembro de 1949, havia falecido em Angola “em acidente de jangada no dia 14 de Julho de 1971”.Porém, a continuidade dos nossos estudos e investigações, levou-nos a estabelecer recentemente diversos contactos com ex-camaradas de alguns dos militares recaredenses tombados no ultramar. Por conseguinte, foi-nos possível recolher novas e importantes informações, não só sobre as operações militares em que se envolveram, como também sobre os verdadeiros motivos que os levaram ao triste desenlace.
Por via dos testemunhos recolhidos, chegou até nós a informação de que Fernando Moreira terá falecido, não devido a acidente de jangada, como tínhamos afirmado, mas sim na sequência de ferimentos graves em resultado de um acidente de viação. Isso mesmo nos descreveu detalhadamente José Marques de Pinho, então alferes miliciano da CCav 2649/BCav 2902, após recolha de informações junto de vários camaradas da mesma companhia e de entre os quais, o enfermeiro Sr. Artur Carvalho, que socorreu o soldado recaredense aquando do infortúnio.
Formada no Regimento de Cavalaria 3, sediado em Estremoz, a Companhia de Cavalaria 2649, à qual pertencia o soldado recaredense Fernando Moreira, embarcara no Cais da Rocha do Conde de Óbidos, Lisboa, com destino a Angola, no dia 14 de Fevereiro de 1970.
Tendo o navio “Pátria” chegado a Luanda dez dias depois, o batalhão que a companhia integrava - BCav2902 - ficara sediado na «Área 3» do Campo Militar de Grafanil[1], nos arredores daquela cidade, como unidade de reserva da Região Militar de Angola (RMA).
No dia 13 de Junho de 1971, o batalhão foi deslocado para a província do Moxico, na Zona Militar Leste (ZML), tendo estabelecido a sua sede em Lucusse, onde muitos anos depois, em 2002, viria a ser assassinado o líder da UNITA, Jonas Malheiro Savimbi.
Uma das missões da CCav2649 (cognominada “A OUTRA”[2]) foi disponibilizar um dos seus quatro pelotões, no sentido de fazer protecção ao Movimento de Viaturas Logísticas (MVL), entre as localidades de Luso e Gago Coutinho. O MVL era, pois, uma coluna de viaturas civis, pesadas e ligeiras, que abasteciam as localidades e os destacamentos militares.
Numa dessas colunas, escoltada por uma subunidade comandada pelo Alf. Henrique Manuel Ribeiro Lima, à passagem por Lucusse, o condutor da Berliet onde seguia Fernando Moreira e que ia entrar de férias, foi substituído por um outro motorista, que segundo José Marques Pinho, não tinha grande experiência de condução.
No dia 12 de Julho de 1971, a Berliet preparava-se para transpor um pontão de madeira de exíguas dimensões, já muito perto da localidade do Luso. Tal travessia era antecedida por um declive em terra batida, bastante acentuado e arenoso, que exigia perícia e a máxima cautela por parte dos condutores dos veículos que por ali passavam. O inexperiente condutor não terá tido a necessária destreza para dominar a viatura, que ao sair do trilho capotou. Parte da carga bem como os seus ocupantes, entre os quais o recaredense Fernando Moreira, foram cuspidos para o leito do rio Sacassanje, resultando daí alguns feridos graves e um morto imediato (João Pinela Raposo).
Segundo o enfermeiro Artur Carvalho, contactado por José M. Pinho, o malogrado Fernando Moreira não apresentava exteriormente sinais de grandes danos físicos, mas sintomas de pré-afogamento e de lesões internas não identificáveis de imediato. Todavia, dois dias depois, essas lesões viriam a revelar-se fatais, quando já o militar recaredense se encontrava numa unidade hospitalar.
Em homenagem aos militares do “Xeque-Mate” (alcunha do Batalhão de Cavalaria 2902) falecidos entre 1970 e 1972, foi construído um memorial na localidade de Lucusse, onde consta o nome de 9 soldados – entre os quais, o de Fernando Moreira – e 1 Furriel. Foi solenemente descerrado em Janeiro de 1972 pelo então General Comandante da Zona Militar Leste de Angola, José Manuel Bettencourt Conceição Rodrigues.Em Fevereiro desse ano dava-se por terminada a comissão. As companhias regressaram à “metrópole” por via aérea: a CCS a 7 de Março; a CCav 2649 no dia 11; a 2650 no dia 18 e a 2651 a 20 do mesmo mês.
Memorial aos mortos do BCav 2902, em Lucusse, Angola.[3]
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[1] “Missão em Angola” (Março de 1972) Xeque-Mate (BCAV2902), Edição especial.
[2] As restantes três companhias do Batalhão eram a CCS, Companhia de Comandos e Serviços, “A Invejada”; a CCav2650 “A Infernal”; e a CCav2651 “Os Impecáveis”. Como a CCav2649 não tinha apelido, ficou, por exclusão de partes, conhecida como “A Outra”.
[3] Foto de “Missão em Angola” (Março de 1972) Xeque-Mate - BCAV2902, Edição especial.

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