António da Rocha Santos - A trágica viagem entre Mocimboa de Rovuma e Negomano
Vítimas de rebentamento de minas anti-carro, da própria incúria, ou até de simples e desafortunados despistes, faleceram em Angola 860 militares, em Moçambique 467 e na Guiné 153.[1]
Entre essa triste contabilidade estará o soldado António da Rocha Santos, nascido no lugar do Outeiro, freguesia de Recarei, a 2 de Julho de 1946.
Foi no Regimento de Infantaria 3, em Estremoz, que se formara o Batalhão de Cavalaria 2848, constituído pela Companhia de Comando e Serviços (CCS), à qual António Santos pertencia, e pelas Companhias de Cavalaria (CCav) 2375, 2376 e 2377.
A 24 de Abril de 1968, o batalhão partira do Cais da Rocha do Conde de Óbidos, Lisboa, a bordo do navio “Vera Cruz”, tendo cumprido várias paragens durante o seu percurso: Luanda, Angola, a 3 de Maio; Lourenço Marques (actual Maputo), Moçambique, no dia 10, saindo dois dias depois; Beira, no dia 13; Nacala, a 14; Porto Amélia (actual Pemba), no dia 17; e finalmente, Mocimboa da Praia, no dia 18.
No dia 20 de Maio, parte do batalhão chegara por via aérea ao aquartelamento de Mueda, e parte, em coluna militar, ao aquartelamento de Mocimboa do Rovuma, uma localidade já muito próxima da fronteira com a Tanzânia. Tanto a CCS como a CCav 2375 ficariam em Mocimboa, tendo a CCav 2377 seguido em coluna militar para o aquartelamento de Negomano. Por seu turno, a 2376 continuou por via marítima, a bordo de um vaso de guerra, até ao aquartelamento de Palma, indo depois em coluna militar para o de Nangade, onde ficara estacionada. Cerca de quatro meses depois, entre os aquartelamentos de Mocimboa do Rovuma e Negomano, um grupo de combate da 2375 que havia feito patrulhamento na picada entre essas duas localidades, terminara entretanto a sua missão.
Havendo necessidade de se fazer a recolha daqueles operacionais, mobilizou-se para tal uma coluna de viaturas e respectivas tropas, coluna essa onde seguia, na vanguarda, o soldado sapador António da Rocha Santos.Os sapadores do exército tinham a perigosa missão de prevenir a existência de obstáculos no trilho das tropas. Posicionavam-se, assim, na frente das colunas, a pé ou em viaturas próprias, palmilhando o terreno, tanto quanto possível, com o objectivo de localizar e desactivar qualquer mina anti-carro e/ou anti-pessoal que lhes pudesse surgir no caminho.
Juntamente com António da Rocha Santos, numa Berliet “rebenta minas”, seguia o 1º Cabo Sapador, Alfredo Amândio Vieira da Rocha, e mais dois outros elementos. A cerca de 10 quilómetros de Mocimboa, a viatura onde seguiam accionara uma mina anti-carro, tendo a explosão consequente acabado por ferir todos os seus ocupantes, alguns deles com gravidade. O capot da Berliet soltara-se e atingira com violência dois dos quatro combatentes que nela seguiam, sendo um deles, o soldado recaredense.
Dada a trágica ocorrência, os feridos foram evacuados por helicóptero, primeiro para a unidade hospitalar de Mueda, posteriormente para Nampula.
No dia 4 de Setembro, devido à gravidade das lesões, houve necessidade de se transferir novamente o soldado António Santos desta feita para Lourenço Marques. Todavia, não resistindo aos ferimentos, o soldado de Recarei viria a falecer no caminho.
Entretanto passaram quatro longos meses até que o corpo chegasse à “metrópole”. Só a 8 de Janeiro de 1970 é que, em Recarei, se realizaria o seu funeral. Para esta tão significativa demora não encontrámos explicação “oficial”. Por ventura, a exemplo do que acontecera noutros casos, é bem possível que tal demora se tenha verificado devido à espera do acumular de um determinado número de corpos no local de embarque que, enfim, justificasse de alguma forma, a saída de um único meio de transporte rumo ao velho continente.[i]

Aquartelamento de Mocimboa do Rovuma (Foto: Carlos Verdasca)
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[1] Dados estatísticos constantes do site sobre a Guerra Colonial, no endereço http://www.guerracolonial.org/specific/guerra_colonial/uploaded/graficos/estatiscas/mortos.swf, acesso a 10/06/2009.
[i] As informações que serviram de base à elaboração deste artigo foram recolhidas pelo ex-combatente Carlos Alberto Correia Braz Verdasca, a quem agradecemos tão solícita e amável colaboração.
[1] Dados estatísticos constantes do site sobre a Guerra Colonial, no endereço http://www.guerracolonial.org/specific/guerra_colonial/uploaded/graficos/estatiscas/mortos.swf, acesso a 10/06/2009.
[i] As informações que serviram de base à elaboração deste artigo foram recolhidas pelo ex-combatente Carlos Alberto Correia Braz Verdasca, a quem agradecemos tão solícita e amável colaboração.

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