26 de Julho de 2009

Inéditos (XV/2009)

Alfredo da Silva Nunes – A última emboscada

«O MPLA, dispondo de elementos bem instruídos e armados, não só reagia às acções ofensivas das NT mas também executava algumas emboscadas às colunas militares em que revelou certa eficiência e boa mentalização.»

Alfredo da Silva Nunes, nascido no lugar da Várzea, Recarei, a 16 de Março de 1943, foi o segundo militar recaredense a falecer no contexto da Guerra Colonial.
Com a categoria de Soldado Atirador de Infantaria, Alfredo Nunes fora mobilizado do Regimento de Infantaria 2, sediado em Abrantes, para servir na Região Militar de Angola (RMA), integrando o Pelotão de Caçadores 970.
A bordo do famigerado “Vera Cruz”, um dos navios mais emblemáticos da Companhia Colonial de Navegação, partiu de Lisboa rumo a Luanda no mês de Julho de 1964.
Cerca de dois meses depois da chegada, mais concretamente a partir do dia 1 de Setembro, iniciara após provas de selecção, o período de instrução do 1º Curso de Comandos da RMA, realizado num Centro de Instrução (CIC) instalado na Fazenda Belo Horizonte, nas imediações do Bairro Cazenga, subúrbios de Luanda.
Em finais de Janeiro de 1965, embarcou da que é hoje capital de Angola, juntamente com todo o Centro de Instrução e a 1ª e 2ª Companhia de Comandos em final de formação, numa LDG (Lancha de Desembarque Grande) rumo ao enclave de Cabinda.
Foi nessa província, desagregada do território angolano e situada entre o Zaire e o Congo, que Alfredo Nunes concluíra a Instrução de Comando, recebendo o respectivo crachá precisamente no dia 5 de Fevereiro. Era, como sabemos, data especial na terra onde nasceu, onde se celebrava naquela altura ainda com a pompa e circunstância entretanto extintas, a romaria em Honra de Santa Águeda.
Passou assim a integrar a 1ª Companhia de Comandos, unidade comandada numa primeira fase pelo Capitão de Artilharia “Comando” António Gabriel Albuquerque Gonçalves, e posteriormente, pelo Capitão de Infantaria “Comando” Raul Miguel Socorro Folques.
No mês de Março seguinte, regressou ao CIC de Luanda e participou em múltiplas operações militares um pouco por toda a Zona de Intervenção Norte (ZIN). Em Dezembro foi novamente mobilizado para a região de Cabinda, tendo regressado ao CIC em Janeiro de 1966.
Em Agosto seguiu para a Zona Leste, designadamente para o “Saliente de Cazombo”, onde a sua passagem pelas operações militares ultramarinas teria, infelizmente, o pior dos desfechos.
Uma publicação
[1] do Estado-Maior do Exército definia a região da seguinte forma:

“O saliente de Cazombo, que mais parece uma península penetrando profundamente nos territórios circunvizinhos, é cortado pelo rio Zambeze em duas partes de características diferentes, pois a Oeste o terreno é semelhante ao restante do distrito, mas a Leste é de tipo montanhoso, rochoso e de cor vermelha. As fronteiras do saliente, assim como de todo o distrito do Moxico, são convencionais e portanto muito permeáveis, o que, aliado à circunstância de também não haver uma fronteira étnica bem definida (alguns chefes gentílicos da Zâmbia exerciam grande influência sobre nativos portugueses), facilitou a actividade subversiva do inimigo.”

Sobre o movimento independentista que operava no terreno:

“ (…) O MPLA, dispondo de elementos bem instruídos e armados, não só reagia às acções ofensivas das NT mas também executava algumas emboscadas às colunas militares em que revelou certa eficiência e boa mentalização. Demonstrou ainda um particular aperfeiçoamento nas técnicas de aliciamento das populações. Se as autoridades gentílicas não colaboravam, empregava o terrorismo selectivo.”

O mesmo opúsculo revelava as dificuldades encontradas pelos operacionais lusos:

“Desde o início da subversão no Leste que as Forças Militares desenvolveram uma intensa actividade mas as dificuldades encontradas têm sido grandes pois, numa área tão extensa e onde a observação se faz a longas distâncias, os movimentos terrestres são muito lentos e surpresa difícil de obter.”

Quando o exército português punha em marcha a denominada “Operação Chuva”, o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) lançava a sua 3ª emboscada no leste da província, concretamente no itinerário Rio Luena – Lumbala, sector fronteiriço sudoeste do saliente do Cazombo.
Durante essas movimentações e em consequência de ferimentos adquiridos em combate, Alfredo da Silva Nunes tombara para sempre no dia 19 de Setembro de 1966. O seu corpo jaz no cemitério da sua terra natal.
[i]

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[1] Estado-Maior do Exército. O Caso de Angola. Colecção Cadernos Militares 6.
[i] Grande parte das informações que serviram de base ao texto aqui apresentado foram-nos enviadas, via e-mail, por um veterano da Associação de Comandos Portugueses.

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