Daniel Augusto Nogueira Moreira – O acidente no
Parque Natural da Gorongosa
O então 1º Cabo Pára-Quedista Daniel Augusto Nogueira Moreira, nascido no lugar da Portela, Recarei, a 24 de Novembro de 1950, foi o último dos sete “mártires” recaredenses a tombar no contexto das campanhas militares ultramarinas.A informação oficial relativamente à causa de morte de muitos dos militares portugueses caídos em África, ou se esgota em motivos genéricos, ou não corresponde, em absoluto, à verdade dos acontecimentos. Não importa aqui detalhar o porquê da escassez ou mesmo falsidade das informações oficiais, o que pode ter múltiplas explicações. No entanto é sabido que, para efeito de pensões, a indicação “Morto em combate” era economicamente mais favorável para as famílias dos falecidos.
Daniel Moreira é, pois, um dos combatentes falecidos no ultramar cuja verdade do que realmente aconteceu - narrada na primeira pessoa por quem viveu de perto a tragédia -, contradiz a informação oficial relativamente à sua causa de morte.
Com base na “informação oficial” já por nós havia sido escrito em Villa Recaredi (2008) que este militar “ferido em combate acabaria por falecer no dia 19 de Julho de 1973 a bordo do avião a caminho do Hospital da Beira, Moçambique”. Veremos no entanto, em seguida, com a ajuda de proveitosas indicações dadas pelo ex-combatente António Fazendas (do mesmo batalhão que Daniel Moreira) que o militar recaredense faleceu, não em combate, mas sim vítima de um acidente de viação.
Como todos os “páras”, Daniel Augusto Nogueira Moreira terá cumprido no Regimento de Caçadores Pára-quedistas, em Tancos, os três meses de recruta, o curso de pára-quedismo (2 meses) e o curso de combate (4 meses). Após esse tempo alguns dos formados ficavam no RCP enquanto outros, em tempo de guerra, eram mobilizados para o ultramar.
No início da década de 60, o transporte dos pára-quedistas era feito de barco, porém posteriormente passou a ser feito de avião, estando as tropas divididas em diferentes batalhões e rumando a uma das três frentes: Guiné, Angola ou Moçambique.
Na Guiné estava o BCP 12 e em Angola o BCP 21. Em Moçambique havia 2 batalhões: o BCP 32 no norte, em Nacala, e o BCP 31, ao qual pertencia o nosso militar recaredense, na região da Beira. Cada um destes batalhões tinha duas companhias, cada companhia quatro pelotões e cada pelotão três secções que se encontravam, por sua vez, subdivididas em duas equipas de quatro homens.
Daniel Moreira terá provavelmente chegado a Moçambique durante o mês de Maio de 1972, seguindo para Moxoxo, na região de Tete e mais tarde para Mueda, província de Cabo Delgado. Aí havia um sinistro letreiro que dizia: “Bem-vindos a Mueda. Aqui trabalha-se, luta-se e morre-se”, ao pé do qual os soldados gostavam de tirar uma fotografia para posterior recordação.
Depois disso, o batalhão que ostentava o lema “Honra-se a pátria de tal gente”, esteve em Zunga/Changara, em Estima, Tete e finalmente, em Gorongosa, onde a 19 de Julho de 1973 se dera o fatídico acidente que vitimara um condutor e cinco pára-quedistas, entre os quais o 1º Cabo a quem dedicamos este artigo.
O Parque Natural da Gorongosa era e é ainda hoje, um vasto espaço turístico sito no coração de Moçambique, que chegou a reunir, nas décadas de 50 e 60, algumas das mais densas populações de animais selvagens de toda a África.[1] A parte habitacional – Chitendo – situava-se na zona central daquela reserva. Tinha um restaurante, quartos para alojamento de turistas, casas de habitação dos funcionários, uma piscina, uma pequena pista para avionetas e oficina para reparação das viaturas que levavam os visitantes a ver, entre outras atracções, os leões, os búfalos e o lago dos hipopótamos. Na altura o espaço não era controlado por militares, apenas vigiado por civis africanos.
No início do mês de Julho, fora anunciado pela estação de rádio da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) que o Chitengo/Gorongosa iria ser alvo dos ataques deste movimento independentista. Terão circulado, inclusivamente, alguns panfletos que anunciaram a data exacta dos ataques… e assim foi.
Uma rajada de tiros fora executada contra a zona do restaurante e da qual, apesar de haver turistas na esplanada, não resultaram quaisquer feridos. Dada a urgência, os pára-quedistas foram requisitados, avançando à civil, para que os turistas não se apercebessem.
As tropas ficaram distribuídas em pontos estratégicos como o portão do parque, que ficava a 17 km e onde existia uma pequena casa destinada aos guardas. Aí ficara uma equipa de nove elementos, entre os quais o Daniel Moreira, que na manhã do dia 19 de Julho de 1973 fora rendida já com algum atraso.
Saindo dali numa viatura Unimog, veículo vulgarmente designado por “pincha”, o sargento José Maria Guimarães Ribeiro, que comandava a secção, terá dito, pelo caminho, ao condutor, que pusesse o pé no acelerador pois a fome apertava. As “pinchas” eram viaturas altas cuja direcção obrigava a rodar o volante várias vezes até endireitar e onde os soldados seguiam “aos pinchos” (daí o nome) em bancos de madeira.
Percorridos apenas 2/3 kms, ou seja, ainda a cerca de 14 km do Chitengo, a Unimog entrou numa curva que antecedia uma ponte sobre um riacho seco. À volta, o capim era alto e denso, impedindo a visibilidade. Apercebendo-se tardiamente da existência do declive, o condutor não conseguiu endireitar a viatura que acabou por cair e capotar.
Os que foram cuspidos para longe tiveram mais sorte, sobrevivendo com apenas alguns ferimentos. Os restantes ficaram debaixo da viatura e acabaram por falecer. O 1º Cabo José Carlos Pinto de Matos, natural de Rio de Galinhas, Marco de Canaveses, esse sim, morreu no ar, quando ia já a caminho do Hospital[2]. O recaredense Daniel Augusto Nogueira Moreira, 1º Cabo nº881/71 do 2º pelotão da 1ªCCP do Batalhão de Caçadores Pára-Quedistas 31, foi um dos que infelizmente perderam a vida no local do acidente. Aqui ficam os nomes das 6 vítimas mortais:
- 2º Sarg. PQ nº011546A – 1ªCCP – José Maria Guimarães Ribeiro (nat. de Massarelos, Porto);
- 1º Cabo PQ nº464/71 – 1ªCCP – José Carlos Pinto de Matos (Rio de Galinhas, Marco de Canaveses);
- 1º Cabo PQ nº881/71 – 1ªCCP – Daniel Augusto Nogueira Moreira (Recarei, Paredes)
- Sold. PQ nº1503/71 – 1ªCCP – Maximiano António Nunes Gonçalves (Alter do Chão, Portalegre);
- Sold. PQ nº413/72 – 1ªCCP – Francisco Neves da Silva (Santo Aleixo, Moura);
- Sold. Condutor Auto nº16/76 – CMI – Manuel Leonídio Ribeiro Lopes.
A 3ª secção, que já tinha almoçado e que foi render o grupo acidentado, fora alertada por uma viatura de turistas que, ao regressar da visita, havia reparado numa arma do tipo G3 caída na picada. Foram enviados de imediato para o local os homens que se encontravam ao portão, e mais tarde, os que na altura faziam a vigia do lago dos hipopótamos, grupo este de que António Fazendas fazia parte.
Deparando-se com esta triste tragédia, os soldados puseram-se de imediato em acção, fazendo pedidos de socorro médico e solicitando uma viatura que estivesse por sua vez munida de cabo de aço para virar a Unimog acidentada.
No entanto, como diz A. Fazendas, “em Moçambique tudo é longe” e a viatura “do quartel mais próximo” demorou a chegar. Os soldados ainda tentaram a tiro de G3 cortar alguns troncos e levantar a viatura para que, num esforço heróico, fosse possível retirar alguns dos homens… mas o esforço “foi nulo”.
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[1] in sítio do Parque Nacional da Gorongosa – Sofala, Moçambique. URL: http://www.gorongosa.net/pt/page/restoration/projecto-de-restaurao; acesso a 19/08/2009.
[2] MARTINS, J. in Fórum Paraquedistas. URL: http://www.forum-paraquedistas.com/index.php?topic=2239.0; acesso a 19/08/2009.
[1] in sítio do Parque Nacional da Gorongosa – Sofala, Moçambique. URL: http://www.gorongosa.net/pt/page/restoration/projecto-de-restaurao; acesso a 19/08/2009.
[2] MARTINS, J. in Fórum Paraquedistas. URL: http://www.forum-paraquedistas.com/index.php?topic=2239.0; acesso a 19/08/2009.

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