6 de Setembro de 2009

Inéditos (XVIII/2009)

Joaquim Nogueira Mendonça –
Uma armadilha na picada

Joaquim Nogueira Mendonça nascido a 7 de Janeiro de 1937, no lugar do Outeiro desta freguesia de Recarei, foi o primeiro recaredense a falecer no ultramar.
Pertencia ao Pelotão de Morteiros 17, sediado inicialmente em Bafatá, cidade do centro-norte da então província portuguesa da Guiné. A este pelotão se juntara o Batalhão de Caçadores 238 ao qual pertencia António Paiva Cabelo Baptista, que foi quem, amavelmente, aceitou contar-nos pormenorizadamente como tudo aconteceu naquele fatídico dia 21 de Março de 1963.
Joaquim Mendonça era condutor e ocupava a maior parte do seu tempo numa oficina. Era, pois, aos combatentes do PelMort 17 que estava reservada a tarefa de reparar as viaturas em serviço.
No mês de Março, em plena quadra pascal, o capelão decidiu fazer um périplo pastoral pelas companhias militares portuguesas e pelas povoações da região de Nova Lamego (actual Gabu), designadamente e entre outras, pelas localidades de Pitche e Buruntuma, mas também noutras regiões do litoral oeste como São Domingos. Havia que garantir o serviço religioso, especialmente naquela ocasião, realizando-se não só eucaristias e confissões como também baptismos, quer de elementos das tropas lusas, quer de civis da população indígena.
As deslocações dos capelães faziam-se sempre sob escolta militar e fora numa dessas deslocações que o soldado recaredense viria a sofrer o pior dos infortúnios.
Partira de S. Domingos onde numa emboscada tinha já falecido um capitão de Coimbra, uma coluna de três viaturas: um jipe, uma Unimog (“Pincha”) e um jipão. A rota a seguir previa a passagem pela localidade de Suzana e tinha como destino final a povoação de Varela. Tratava-se de uma zona costeira pelo que os soldados levavam até consigo uns calções para poderem desfrutar um pouco do lazer que a praia lhes poderia proporcionar.
A conduzir o jipe, tarefa normalmente desempenhada por Joaquim Mendonça, ia desta feita um alferes capelão, acompanhado nos bancos da frente por um tenente, também ele com tarefas de âmbito religioso. No banco de trás, virados para a retaguarda, iam António Baptista, auxiliar de serviço religioso, e Joaquim Nogueira Mendonça, condutor.
O jipe tinha uma espécie de resguardo em latão, artesanalmente colocado para minimizar “estragos”. Essa “blindagem” tinha somente um pequeno buraco que permitia ver para diante da viatura, cobria ambos os lados mas era completamente aberta na retaguarda.
Certamente avisados por informadores, o inimigo (PAIGC?) preparou uma armadilha, cavando um buraco na picada por onde sabiam que a coluna iria passar. Disfarçaram a cova com esteiras, que normalmente serviam para fazer vedações, e deitaram-lhe terra por cima.
O caminho fazia-se até ali com toda a normalidade. Conta-nos porém António Baptista que o seu camarada do lado, Joaquim Mendonça, parecia pressentir o perigo que em boa verdade se avizinhava. O semblante do recaredense, ao invés de expressar aquela simpatia natural que o caracterizava, fazia agora transparecer certa preocupação. Além disso trazia a arma virada para cima, como que preparando-se para reagir a uma eventualidade que parecia crer como certa.
Ainda antes de chegar à povoação de Suzana, decorridos que estavam cerca de 15 a 20km desde S. Domingos, a coluna seguia numa zona de vasta densidade florestal. O alferes terá partilhado com os camaradas que parecia haver algo de errado no caminho e mal acabou de proferir tais palavras, o jipe precipitou-se rapidamente para o buraco.
A Unimog, que seguia logo atrás, efectuou uma travagem brusca, embora não a tempo de evitar um ligeiro toque na traseira do jipe. O jipão, última viatura da coluna, também se deteve, ficando os três veículos completamente imobilizados e à mercê dos ataques do inimigo.
Não tardou, pois, a que começasse de súbito o ataque a tiros de caçadeira e de zagalote. A chuva de balas caiu sobre os militares portugueses que fugiram como puderam sem saber ao certo de onde vinham os projécteis.
António Baptista ainda logrou sair do jipe e rastejar, não sendo beliscado pelo fogo inimigo. Pior sorte – a pior de todas – teve o recaredense Joaquim Nogueira Mendonça, que não conseguiu escapar com vida à fatal investida dos rebeldes. Cinco tiros de zagalote foram-se alojar fatalmente no seu peito, sendo a única vítima mortal deste recontro.
Os militares reagiram ao ataque sem contudo evitar que o inimigo se escapulisse por entre o denso matagal das redondezas. A cerca de 50 metros da picada os portugueses encontraram cartuchos de calibre 12 e 16, dois molhos de setas e os balaios (cestos), que tinham sido usados para tirar a terra do caminho. Foi também ali encontrada uma mancha de sangue, o que prova que a troca de tiros terá também atingido algum ou alguns dos autores da emboscada.
Chegados a S. Domingos os companheiros trataram de arranjar um caixão provisório, solicitando a tarefa a um carpinteiro local. Nessa mesma noite transportaram o corpo até Bafatá, fazendo a travessia do rio Corubal numa jangada, absorvidos pelo risco sério e real de serem novamente atacados.
Apesar do incidente – trágico e inesperado – o Batalhão de Caçadores 238 foi pouco beliscado pela turbulência da guerra. Tudo isto acontecera já numa fase final da sua campanha na Guiné, pois daí a pouco tempo todos os elementos regressariam a casa.
António Baptista lembra o seu camarada “Mô Rico” – como Joaquim Nogueira Mendonça era carinhosamente conhecido – como um “rapaz espectacular”, que irradiava simpatia trazendo sempre no rosto um sorriso aberto e feliz. A simpatia que os militares por ele nutriam era extensível aos indígenas, que tinham apreço pelo jovem recaredense com quem nos momentos de distracção e lazer “jogavam à bola e faziam um pé de dança”.
Aquele fatídico dia fora desde então ininterruptamente lembrado todos os anos, também em jeito de homenagem, numa comovente atitude íntima e pessoal, de grande simbolismo, que importa aqui dar a conhecer.
O ex-combatente que nos facultou as informações acima descritas foi durante quatro décadas funcionário dos caminhos-de-ferro. Ao longo de todos esses anos nunca trabalhou no dia 21 de Março. Prometeu a si próprio, pela fortuna de ter escapado incólume ao ataque e em memória do seu malogrado camarada, que nada faria daí em diante naquele mesmo dia. Depois de reformado prosseguiu o seu ritual, e se algo houvesse que fazer em casa, ficaria adiado para o dia seguinte. Ainda nos dias de hoje, António Paiva Cabelo Baptista, residente em Montemor-o-Velho, continua a aproveitar este seu “feriado” para passear com a família, para ir ao Santuário de Fátima ou tão simplesmente para descansar.

1 comentários:

Jorge Gomes disse...

Preservar a memória do passado é um acto louvável. Parabéns pelo teu trabalho!
Certamente que estes rapazes de Recarei ficariam contentes por saber que não serão esquecidos.

Jorge Gomes