Notas toponímicas
Dissertar sobre as origens da toponímia de qualquer localidade, com toda a complexidade que a temática encerra e com toda a importância que do ponto de vista histórico e etnográfico ela representa, é sempre uma tarefa arriscada mas ao mesmo tempo desafiante. Importa ressalvar, por isso, que as tentativas etimológicas aqui deixadas, tendo em vista as possíveis origens dos nomes de lugar, não passam, quase sempre, de hipóteses documentalmente não comprováveis.
Recorrendo à bibliografia especializada e ao nosso levantamento local, faremos uma breve incursão por alguns dos topónimos não abordados em Villa Recaredi (2008) e por aqueles que, embora já tratados, nos mereçam mais algum tipo de notas, reparos ou considerações adicionais.
Agrelo – Não obstante termos abordado este topónimo em Villa Recaredi (2008), consideramos todavia conveniente deixar a seguinte nota: quando falamos do lugar de Agrelo estamos a referir-nos, comprovadamente, a um dos mais antigos lugares da freguesia. Aparece, pois, nos registos da paróquia de Sobreira, pela primeira vez em 1690 (f. 99v., Reg. Bapt.) nomeado como lugar “do Agrello da Costa de Recarei”. Surge primeiro como topónimo e, no séc. XVIII, como apelido de família: “Manuel João Agrello” (f.254 Reg. Ob. de 1720).
Ante Carreira – Topónimo frequente em registos do séc. XVII (p. ex. 1654, 1656, etc.) e séc. XVIII (1714), seguido do topónimo “Costa” ou simplesmente do macrotopónimo “Recarei”. Casos há ainda em que aparece seguido dos dois, como se vê a f. 99 do livro de Reg. de Bapt. de 1690: “Ante Carreira da Costa de Requarei”. O primeiro elemento surge pela localização, sendo este o lugar que está «diante» da Carreira, «à frente de». Quase desaparecido da oralidade popular, «ante carreira» começa onde existe hoje uma óptica médica e onde em tempos funcionou um lagar de azeite, estendendo-se até ao lugar de Amido.
Barreiro – Em registos do séc. XVII, aparece isoladamente ou seguido do macrotopónimo, como se vê a f. 15 do Livro de Registo de Baptismos de 1650: “Barreiro de Recarem”. Num assento da centúria seguinte (1717), a indicação desvenda-nos a localização geográfica: “Manuel João do Barreiro do Outeiro de Recarei” (Reg. Ob. f. 248 v.). É genericamente um topónimo comum em Portugal e na Galiza, podendo o seu significado advir de «lugar donde se tira barro», de «terra alagada»[1].
Bica – Surge por ex. em 1655 (Reg. Bapt. f. 24v.) seguido do macrotopónimo. Ainda em 1669 (Reg. Bapt. f. 56 v.), 1670 (Reg. Bapt. f. 59), 1672 (Reg. Bapt. f. 65 v.) etc. Não conhecemos a sua localização exacta pois o topónimo não chegou aos nossos dias. O nome em si denuncia a proximidade de uma fonte ou «canal de onde sai água»[2], sendo este um nome de lugar muito frequente no nosso país, tanto em nomes simples como compostos.
Carreira – Surge em vários assentos do séc. XVII e XVIII. De acordo com testemunhos dos mais antigos chamava-se «lugar da Carreira» ao espaço compreendido entre o Amieiro e o local onde existe hoje a sede social do Sport Clube Nun’Álvares. Deve o seu nome à existência ali de um pequeno caminho ou passagem.
Chousas – A actual rua com este topónimo situa-se em Terronhas. Do latim clausus. Uma chousa, ou o seu masculino, diz-nos Figueiredo[3], trata-se de um «redil ou sebe, que os pastores armam no campo, de Verão, para ali recolherem o gado». Significa ainda «pequena fazenda cerrada, tapado; cerrado.»
Eirado – Surge em 1649 (f. 12 v.) seguido de macrotopónimo (da Costa de Recarei, ou simplesmente de Recarei) como elemento distintivo, pelo facto de existir “Eirado” no lugar de Casconha (Sobreira) e também em Bustelo (Recarei). De eira, do lat. area, «superfície, solo unido, plano», «espaço para bater o trigo». Significava também «cemitério» (séc. XV): “foisse a eirado onde jaziao os Martires” [4].
Lameiro – Topónimo muito antigo já mencionado no foral manuelino[5] (séc. XVI). Surge nos registos paroquiais em 1644 (f. 4) e 1664 (f. 44 v.), sempre seguido do macrotopónimo. Já demos conta em Villa Recaredi (2008) de “Vale Lameiro”, sito na zona de Bustelo, que poderá tratar-se do mesmo local. De significado evidente, onde existe «lama», como Lameiras, em Terronhas.
Legrete – (ver Alegrete em Villa Recaredi, 2008) Chegou aos nossos dias como Alegrete, apesar de aparecer persistentemente nos assentos sem a vogal a. Vê-se Legrete p. ex. em 1647 (f. 8), 1649 (f. 12) e nos anos seguintes até ao séc. XIX. De resto, na oralidade popular, o topónimo permanece como se lia e escrevia no séc. XVII, sendo certo que era a escrita que obedecia à oralidade e não o contrário, pois ainda hoje os mais antigos se referem ao dito lugar dizendo Legrete e não Alegrete. Importa referir ainda a existência de Legreta como sobrenome ou apelido (ex. “Maria Legreta”) em 1650 (f. 14 v.).
Pedrógão – Topónimo frequente mas de explicação algo obscura e não consensual. Surge em documentos antigos sob a forma de Petragonum (séc. XII), Pedrogano e Petroganum (séc. XIII), esta última latinizada, já com “o sentido de «pedra esbranquiçada», «rocha branca», quando da invasão muçulmana (séc. VIII).”[6] Situa-se junto a Laceiras, já próximo da divisória com a vizinha freguesia de Gandra.
Recarei – Macrotopónimo formado a partir do nome próprio de origem germânica Recaredo. Documentalmente aparece sob as formas de Rekaredi (séc. X), Recaredi (séc. XI), Reccarei, Recharei e Recarei (séc. XII), Recarey e Recarhey (séc. XIII)[7]. Nos livros de registo paroquial os sacerdotes escreviam-no de várias formas: Recaré, Recarém, Recarem, Dercarei, Requarei (séc. XVII). Inclinamo-nos a defender que a sua origem remontará ao período da Reconquista Cristã (séc. IX), época em que os nobres asturianos, aproveitando uma conjuntura favorável, tomaram à força grande parte das terras a norte do Douro: as chamadas presúrias. Ao apossarem-se dessas terras os presores perpetuavam nelas o seu nome – uma prática indicadora de posse já anteriormente levada a cabo pelos romanos –, razão pela qual é frequente encontrarmos ainda hoje, nesta região, topónimos que tiveram origem em nomes próprios. Antes de se tornar nome de freguesia independente (séc. XIX), era já topónimo de vasta abrangência territorial, concentrando em si dezenas de microtopónimos. Nos registos paroquiais essas subdivisões geográficas localizadas a oeste da igreja matriz da Sobreira, eram quase sempre complementadas com o macrotopónimo “Recarei”: “Costa de Recarei”, “Lamela de Recarei”, “Outeiro de Recarei”, “Barreiro de Recarei”, etc. Assim acontecia com quase todos os nomes de lugar ainda hoje identificáveis, excepto com os de formação recente e com aqueles que eram já, até ao séc. XIX, de maior dimensão e por si só concentradores de subunidades toponímicas: Terronhas e Bustelo. Quando em 1855 e 1856 foram dados os passos necessários para a desanexação dos lugares de Recarei, Terronhas, Bustelo, Alegrete e Orengas – os nomeados no decreto episcopal – da freguesia da Sobreira para formação de nova entidade administrativa e religiosamente autónoma, o primeiro seria o topónimo dominante, certamente por ser a parte central de todo este espaço geográfico e a zona mais habitada (reunindo os lugares da Costa, Portela, Lamela, Outeiro, Cabido…), pelo que a sua escolha para designação da novel freguesia terá sido como que natural.
Rua 18 de Maio – Para que conste, deu-se a esta rua do lugar do Cabido o nome da data de conclusão das suas obras de calcetamento.
Rua de Jabel – De acordo com a nossa recolha morou em tempos ou era dono de uma propriedade daquele lugar ou daquela rua, um senhor chamado “Luís Abel”. A oralidade popular foi moldando, por processo natural, a pronunciação destes dois nomes próprios. A dada altura a propriedade de “Luís Abel” passou a ser chamada de lugar “de Luijabel”, depois foi perdendo vogais passando a lugar “de Lujabel”, “de Ljabel” até se tornar no actual topónimo “de Jabel”. Não temos datas concretas para apresentar mas todo este processo é relativamente recente. Assim chegou aos nossos dias e nessa corrupção onomástica recaiu a escolha da Junta de Freguesia para baptizar a rua.
Rua de Valtomar – Do antropónimo germânico Baldemarus, que terá estado na origem da designação dos lugares actuais de Baldomar (Porto, Viana do Castelo; na Galiza, em Corunha), Valdomar (Braga, Orense, Porto; na Galiza, em Pontevedra)[8] e, certamente, do nosso Valtomar, em Recarei.
Siqueiros / Sequeiros – Topónimo muito antigo já mencionado no foral manuelino[9] (séc. XVI). Lugar muito povoado no séc. XVII, pelo menos. A atestá-lo o facto de ser frequentemente citado nos assentos paroquiais. Provém da palavra latina siccarius, significando «lugar de terreno seco», «sem água de rega». É também o mesmo que enxugadouro, secadouro, locais onde se estendem roupas para enxugar, frutos para desidratar, folhas de plantas e peças de olaria, entre outros. Sequeiro é também um regionalismo para designar uma espécie de espigueiro.[10]
Vale de Estrela - «Vale» é elemento topográfico de significado evidente. O topónimo «Estrela» sugere-nos Machado[11], provém do “latim stela, stella («estela», «cipo», «túmulo», ao lado de stella, «estrela»). (…) Acrescente-se a possibilidade de o lat. stella (> port. estrela) ter sido sugerido por topónimo pré-romano iniciado por set- > est-, nome de elevações (em céltico ou pré-céltico) que por vezes aparece com sufixos latinos, neste caso –ella.” A ladeira do Vale de Estrela situa-se na zona do Cabido.
Vale dos Infernos – O primeiro elemento é topográfico, de significado evidente. Já o segundo estará por mera metáfora, da mesma forma que se dá o nome de “Boca do Inferno” a um local estreito, íngreme e penhascoso da Senhora do Salto, freguesia de Aguiar de Sousa. O “Vale dos Infernos” situa-se na zona de Além-do-Rio e à data da designação dever-se-ia tratar de um local inóspito, feio, agreste ou inabitável. No fundo deste vale corre o rio Sousa, ladeado de verdes margens e encostas repletas de árvores fortes e viçosas. Nos dias de hoje aquele sítio não parece corresponder à ideia que terá originado o seu tão depreciativo nome.
Vale Tojinho – O segundo elemento é diminutivo de tojo, “palavra especial do noroeste da Península Hispânica” e “supõe-se-lhe uma base toju, seguramente pré-romana”.[12] Situa-se na zona de Bustelo.
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[1] MACHADO, J. Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. Livros Horizonte. 3ª Edição. Lisboa, 2003.
[2] Idem.
[3] FIGUEIREDO, Cândido de. Grande Dicionário da Língua Portuguesa. 25ª Edição. Bertrand Editora.
[4] MACHADO, J. Pedro. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Livros Horizonte. 8ª Edição. Lisboa, 2003.
[5] Foral de Aguiar de Sousa dado pelo Rei D. Manuel I em Lisboa a 25 de Novembro de 1513. Ver parte “Titollo de Recarrey”.
[6] MACHADO, J. Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. Livros Horizonte. 3ª Edição. Lisboa, 2003.
[7] Idem.
[8] Ibidem.
[9] Foral de Aguiar de Sousa dado pelo Rei D. Manuel I em Lisboa a 25 de Novembro de 1513. Ver parte “Titollo de Recarrey”.
[10] Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. Academia das Ciências de Lisboa. Ed. A. C. Lisboa e Editorial Verbo. 2001
[11] MACHADO, J. Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. Livros Horizonte. 3ª Edição. Lisboa, 2003.
[12] MACHADO, J. Pedro. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Livros Horizonte. 8ª Edição. Lisboa, 2003.

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