Dois Recaredenses na Guerra da Restauração (séc. XVII)
Os lugares que constituem hoje a freguesia de Recarei estiveram, como se sabe, durante largo período da sua História anexados à vizinha freguesia e paróquia de S. Pedro da Sobreira. Foi, pois, nos registos paroquiais desta última que fomos achar dois curiosos assentos de óbito, cujas parcas mas suficientes indicações aí encontradas nos levam a admitir, com elevado grau de probabilidade, que se tratam ambos de militares envolvidos nas operações militares da Guerra da Restauração (séc. XVII).Comecemos, antes de mais, pelo devido enquadramento histórico.
A referida contenda ibérica surgiu na sequência do levantamento do 1º de Dezembro de 1640 e prolongou-se por vinte e oito anos. Opunha os portugueses, nobres conjurados e Casa Real de Bragança, aos Filipes de Espanha, que tentavam impor o seu cada vez mais apertado jugo sobre Portugal, que mantinham, sob condições que deixaram de cumprir, desde a morte do Cardeal-Rei Conde D. Henrique e consequente crise dinástica de 1580.
As cortes, reunidas a 28 de Janeiro de 1641, determinaram entre outras medidas e com a urgência que se impunha, a defesa estratégica das nossas fronteiras. Para tal, foi mobilizado um numeroso mas impreparado exército, organizado por um Conselho de Guerra permanente, que tratou desde logo de fortificar praças importantes e posições consideradas fulcrais para a defesa do território então dividido em seis províncias principais: Algarve, Alentejo, Entre-Douro-e-Minho, Trás-os-Montes, Estremadura e Beira.[1]
O recrutamento militar foi feito através da criação de 22 comarcas espalhadas por todo o território, cada uma destas subdividida em «companhias», comandadas por um capitão, um alferes e um sargento. Per si as companhias formavam um grupo de cerca de 300 soldados, todos eles homens considerados válidos e com idades compreendidas entre os 15 e os 70 anos. Exceptuavam-se os filhos únicos das viúvas e os lavradores – necessários ao cultivo da terra –, formando, no entanto, em cada comarca, estes e os casados «de boa idade», o chamado «terço de auxiliares». Em caso de guerra, para fins defensivos ou ofensivos, estes «terços auxiliares» guardariam as fronteiras e enquanto aí estivessem receberiam o «pão da munição».[2]
Além dos meios humanos seriam mobilizadas enormes somas de dinheiro, criando-se contribuições adicionais sobre produtos, ofícios, transacções e propriedades, ficando os donos obrigados ao pagamento da décima parte dos seus rendimentos e os eclesiásticos a uma determinada quantia em cada bispado, variando a importância consoante a renda.[3]
Em 1646 e depois de algumas campanhas levadas a cabo em território de Castela, o governo português tomou a resolução de se limitar, daí em diante, à guerra defensiva. Não mais se formaram exércitos para invasão do território inimigo, que até então se resumira ao ataque esporádico, à conquista episódica, ao saque e ao incendiamento de algumas localidades relativamente próximas da fronteira, apostando-se tão-somente na defesa das populações e das suas terras.
Em 1657 Portugal perde Olivença para os castelhanos até ao final da guerra, perdendo-a depois mais tarde, uma vez mais, já em pleno séc. XIX (1801).
Em 1658 prosseguiram as lides na região alentejana, e sob as ordens do general Joane Mendes de Vasconcelos, que tinha a fama de «general azedo e conflituoso»[4], empreende-se o cerco a Badajoz, que entretanto tinha sido ocupada pelos castelhanos comandados pelo Duque San Germano. A 22 de Julho, o general luso logrou ocupar o Forte de S. Miguel, mas pouco depois, ao chegar a notícia de que um numeroso exército vinha de Madrid sob comando de D. Luís de Haro, os portugueses viram-se na obrigação de levantar o cerco.
Neste contexto vem agora a propósito, como certamente se perceberá, fazer a transcrição do primeiro dos dois assentos de óbito que estão na origem deste nosso artigo:
“Manuel, filho de Manuel Gaspar e de sua mulher Domingas Antónia do lugar de Recarei morreo na fronteira do Alentejo e se obradou por elle Domingo 26 de Maio de 658”[5]
O Alentejo foi de resto, durante toda a guerra, o principal teatro de operações. Foi aí que se deram os maiores recontros entre lusos e tropas de Castela e onde se registaram múltiplos actos de pilhagem e destruição.[6]
Porém, os combates estendiam-se igualmente a outros pontos do país, embora em menor escala, não só entre exércitos como também entre populações.[7] No Norte, a campanha de 1658-59 não começara da forma mais satisfatória para as aspirações lusitanas, tendo Monção sido tomada após longo e penoso cerco a que a população da localidade resistiu heroicamente enquanto pôde.[8]
Dos registos paroquiais de 1659 se extrai, a propósito, o segundo registo de óbito:
“Miguel, fº de Maria André das Torronhas, se faleceo no mês de Janeiro na fronteira do Minho e se obradou por elle aos tres de Agosto de 659.”[9]
Nove anos depois, com a assinatura do tratado de paz entre ambas as partes - Tratado de Lisboa - foi reconhecida a independência “restaurada” do Reino de Portugal.
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Figura: Ilustração da bandeira do exército português usada durante a Guerra da Restauração.
[1] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. XXV, Editorial Enciclopédia Limitada, Lisboa – Rio de Janeiro.
[2] Idem.
[3] Ibidem.
[4] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. XXV, Editorial Enciclopédia Limitada, Lisboa – Rio de Janeiro.
[5] Cf. Livro de Registos Paroquiais de S. Pedro da Sobreira, Arquivo Distrital do Porto, Bobina nº 262.
[6] MARQUES, A. H. de Oliveira. 1984. História de Portugal. Vol. II. 10ª Edição, Palas Editores. Lisboa.
[7] Idem.
[8] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. XXV, Editorial Enciclopédia Limitada, Lisboa – Rio de Janeiro.
[9] Cf. Livro de Registos Paroquiais de S. Pedro da Sobreira, Arquivo Distrital do Porto, Bobina nº 262.

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