Os que dormem na Casa do Senhor
«(…) munido com todos os sacramentos faleceu da vida presente aos 22 dias do mês de Abril de 1822, morrendo de Malina e foi sepultado na Capela de Recarei (…)»
Alvo de vários estudos e motivo de publicações de grande interesse histórico e social, o ritual da morte, desde os derradeiros actos sacramentais até ao depósito do corpo na última morada, transporta-nos pelas ancestrais tradições dos povos, dando-nos a conhecer essa vertente da ligação milenar do Homem à “outra vida”, pela via da fé, como recusa de um negro fim perpétuo, de um grande “nada”, além da simples condição humana de existir.
No cristianismo, um dos actos inerentes ao post-mortem, pelo menos desde a Idade Média, era a inumação dos fiéis defuntos na cripta ou no adro dos centros de culto. Era ali mesmo que os fiéis exigiam estar, adormecidos no “sono eterno”, na “Casa do Senhor”, correspondendo o local à necessidade espiritual de estar mais próximo de Deus. Repousariam assim sob abrigo do sacrossanto edifício que durante as suas vidas testemunhara o manifestar da sua Fé, o sussurrar das suas preces e onde haviam recebido as graças sacramentais.
Até que a tradição fosse interrompida pelo cabralismo já no séc. XIX, também a pequena capela “de Nossa Senhora do Bom Despacho, Santa Águeda e Santa Apolónia”, no lugar da Costa de Recarei, à época ainda sufragânea ou anexa à paróquia de S. Pedro de Sobreira, acolheu no seu solo as famílias que tinham tido a possibilidade económica de adquirir, dentro da nave, um espaço para jazigo de sua casa.
Fruto da nossa[1] recolha nos livros paroquiais de S. Pedro da Sobreira, publicaremos em três partes, a lista de alguns dos recaredenses inumados dentro da capela de Recarei, durante a primeira metade do séc. XIX. Importa ressalvar que não é nosso objectivo fazer uma transcrição exaustiva dos assentos – o que por ventura seria maçador para o leitor destas crónicas – mas antes reproduzir uma pequena amostragem, seleccionando escritos que revelem algum tipo de informação de carácter, a nosso ver, relevante.
Para uma melhor compreensão dos assentos e das informações que os párocos neles faziam constar, será proveitoso deitar mão, antes de mais, de um breve glossário de termos (práticas) relacionados com todo este ritual da morte.
Obrada, ou oblata – Oferecimento. “Obradar um defunto significa oferecer alguma coisa ao altar e aos sacerdotes para que roguem a Deus por sua alma.”[2] Referindo-se de uma maneira geral à antiga tradição do concelho, a obra “Paredes - Jóia do Sousa” indica que “a obrada consistia numa vela de quarta, que era acompanhada por uma quantia de dinheiro, que podia ir até 100$000 (conforme as possibilidades da família) e que era colocada, num envelope, preso à vela, na Capela-Mor da Igreja Paroquial.”[3]
Obradório – Acto de obradar, geralmente no primeiro domingo depois do funeral.
Encomendação ou Encomendamento – Oração ou conjunto de preces exequiais, antigamente recitadas em latim por um número variável de sacerdotes com o objectivo de encomendar a alma do defunto a Deus. Esse número de padres variava de acordo com as possibilidades económicas da família.
Rasa (ou raza) – Medida antiga que equivalia a aproximadamente um alqueire.
Extrema-unção – O último dos sete sacramentos do catolicismo, recebido pelos fiéis às portas da passagem para a desejada vida eterna em Cristo.
Viático – É a última comunhão, a chamada “provisão para o caminho”, para a “via” do reino dos Céus.
Ofícios de defuntos – “Ou simplesmente ofícios, preces pelo eterno descanso das almas dos mortos.”[4]
Comecemos então a transcrever, com ligeiras correcções nossas e grafia actualizada, alguns dos assentos de óbito dos que “dormem na Casa do Senhor”:
Aos doze dias do mês de Novembro de 1804 faleceu da vida presente António, solteiro, homem preto, escravo de António Coelho da Silva do lugar da Costa de Recarei, com todos os sacramentos, de velho, que tinha 95 anos, foi sepultado na Capela de Recarei. Dia era ut supra[5]. O reitor João António de Castro e Vasconcelos.
Aos treze dias do mês de Abril de 1809 faleceu da vida presente Manuel filho de Caetano da Rocha e Maria da Rocha, do lugar do Cabido de Recarei, morto pelos Franceses[6] com um tiro. Foi sepultado em Santa Águeda de Recarei desta freguesia de 18 anos de idade.[7]
Aos treze dias do mês de Outubro de 1810, faleceu da vida presente Caetano José da Rocha Pinto, do lugar do Outeiro de Recarei, só com o sacramento da Extrema Unção, de 80 anos de idade e de [nome da causa de morte, ou doença, ininteligível] foi enterrado na Capela de Recarei por provisão que tinha de Sua Excelência e deu de corpo presente oito obradas conforme o uso de sua casa. Dia era ut supra. O reitor João António de Castro e Vasconcelos.
Aos vinte e quatro dias do mês de Outubro do ano de 1813, faleceu da vida presente, Anna Barbosa, mulher de Manuel Nogueira do Covo da Costa de Recarei, com todos os sacramentos, de 50 anos de idade pouco mais ou menos, de doença [ininteligível], foi sepultada na sua campa que tem na Capela de Santa Águeda desta freguesia de que fiz este assento. Dia era ut supra. O pároco Manuel da Cunha Leão.
Maria da Cunha, mulher de Manuel da Rocha Oliveira do lugar de Recarei desta freguesia, faleceu da vida presente com sacramento da Extrema Unção aos treze dias do mês de Setembro do ano de 1816, morreu de uma apoplexia, e foi sepultada na sua campa na Capela de Santa Águeda, de 50 anos de idade. Dia era ut supra de que fiz este assento. O reitor Manuel da Cunha Leão.
Florêncio, solteiro, filho de António Coelho da Silva e Custódia Barbosa do lugar de Recarei desta freguesia, faleceu da vida presente com todos os sacramentos, foi sepultado na Capela de Recarei tendo de idade 17 anos. Dia era ut supra, o reitor Manuel da Cunha Leão.
Perpétua da Silva, viúva que ficou do Alferes Manuel da Rocha Oliveira do lugar de Recarei desta freguesia, faleceu da vida presente com o Sacramento da Extrema Unção por causa de uma apoplexia, aos onze dias do mês de Agosto do ano de 1820, foi sepultada na sua campa sita na Capela de Recarei. Seu filho Manuel de Oliveira satisfez o seu bem d’alma segundo o costume de sua casa e freguesia, tendo de idade 87 anos. Dia era ut supra de que fiz este assento. O reitor Manuel da Cunha Leão.
Pe. Custódio José da Silva Leal, presbítero do lugar de Recarei, munido com todos os sacramentos faleceu da vida presente aos 22 dias do mês de Abril de 1822, morrendo de Malina[8] e foi sepultado na Capela de Recarei tendo de idade 65 anos e fez testamento dia era ut supra – teve ofício de 8 padres. O pároco Manuel da Cunha Leão.
José da Rocha, da Casa da Figueira de Recarei, solteiro, faleceu com todos os sacramentos no 1º dia de Outubro de 1822 e foi sepultado na Capela de Recarei com a idade de quarenta anos. Seus herdeiros pagaram as oblatas do costume da sua casa, dia era ut supra, de que fiz este assento. O reitor Manuel da Cunha Leão – teve ofício de corpo presente de 8 padres 2º e 3º dia.
Ana Angélica, solteira, do lugar do Outeiro de Recarei, de 52 anos mais ou menos, faleceu a 9 de Agosto de 1824 e foi sepultada dentro da Capela de Recarei, em uma sepultura que é de sua casa e para constar fiz este assento. O pároco encomendado Manuel António Pinto – teve ofício de 8 padres – corpo presente, 2º e 3º dia cada um.
Rosa Nogueira (menor) filha de Manuel da Rocha Nogueira e de Ana Angélica Nogueira. Faleceu a 26/11/1825 e foi sepultada na Capela de Recarei. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.
Manuel Nogueira, da Casa do Covo do lugar de Recarei, freguesia da Sobreira, faleceu aos 75 anos mais ou menos, aos 26/01/1829 e foi sepultado no dia seguinte na Capela de Recarei, tendo recebido tão somente o Sacramento da Penitência e Unção e não recebeu o da Eucaristia por estar estuporado[9] e não o poder receber, obradou ao costume da casa.
Reverendo Manuel Joaquim da Rocha Pinto, faleceu no lugar do Outeiro de Recarei, aos 19/07/1829 e foi sepultado no dia seguinte na Capela de Santa Águeda de Recarei, com 70 anos mais ou menos munido com os sacramentos do costume, fez testamento de 200 missas por sua alma e obradou ao costume da casa [do Alferes do Outeiro]: 3 alqueires de milho; mais meia raza em um cesto, três cântaros de vinho, um carneiro e para constar fiz este assento, era ut supra. O reitor Joaquim da Silva Nogueira. Teve ofício de corpo presente com 8 padres e no 2º e 3º dia.
Manuel da Rocha Oliveira, viúvo do lugar da Costa de Recarei, freguesia de S. Pedro de Sobreira, faleceu da vida presente aos dez dias do mês de Setembro de 1831 e foi sepultado no dia seguinte na Capela de Recarei onde tem sua sepultura, de idade mais ou menos 72 anos com testamento ao próprio deixou 25 missas pela sua alma, 5 pela alma de sua mãe, 5 pela alma de sua mulher, obradou ao costume da casa 3 alqueires de milho, 3 cântaros de vinho, meia raza de milho em um cesto, um carneiro, teve ofício de corpo presente no 2º e 3º dias com onze padres no 1º e oito padres nos outros dias, de que fiz este assento era ut supra. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.
(CONTINUA)
_______________________________[1] Recolha feita por Abel da Rocha Nogueira Júnior (Setembro de 2007) e Ivo Rafael Silva (Agosto de 2009).
[2] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Editorial Enciclopédica. Lisboa – Rio de Janeiro.
[3] In “Paredes - Jóia do Sousa”, Dr. Ricardo Pinto e Ivone Torres, Anégia Editores
[4] Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Editorial Enciclopédica. Lisboa – Rio de Janeiro.
[5] Expressão em latim que significa “dia, mês e ano conforme acima”.
[6] Tropas napoleónicas que invadiram Portugal sob as ordens do general Soult.
[7] Cf. folha nº204 do livro de registo de óbitos da paróquia de Sobreira do ano de 1813 (Bobine nº263 do Arq. Dist. do Porto).
[8] O mesmo que “Maligna”, sendo esta “febre de mau carácter, febre tifóide, tifo.” In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
[9] “Atacado de estupor; entorpecimento das faculdades intelectuais.” In Priberam – Dicionário Online, Texto Editores - Universal.

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