Os que dormem na Casa do Senhor (II)
«(…) foi sepultado no dia seguinte na Capela de Recarei, tinha 34 anos, com todos os sacramentos, teve ofício de corpo presente de 8 padres e nos 2º e 3º dias, com os mesmos (…)»
Voltamos aos que “dormem na Casa do Senhor” deixando introdutoriamente mais algumas informações relativamente ao ritual post-mortem.
Na senda da tradição e entre outras fontes, recorremos à escassa historiografia paredense, tendo sido na útil e prática obra “Paredes, Jóia do Sousa” que fomos encontrar indicações importantes sobre o tema a que temos vindo a dar atenção.
Desde o anúncio da morte passando pelo velório e até à sepultura dos finados, havia uma série de práticas nem sempre ligadas ao culto religioso e das quais nada resta hoje senão a memória.
Segundo a citada monografia, era como forma de “minorar tristezas e dor” que a comida entrava em cena, para gáudio dos intervenientes: àqueles que na terra anunciavam o triste desenlace era oferecido “batatas e bacalhau”; aos que vestiam o cadáver era dado café e aguardente; aos sacerdotes, bolachas e vinho do Porto; e, particularmente, na freguesia paredense de Lordelo, dava-se pão de trigo e vinho aos “gatos-pingados”[1].
“Os abusos eram tantos que estas práticas começaram a desaparecer. É que todos estavam prontos, sempre, para “ajudar” o falecido, porque a recompensa aumentava o apetite.”[2]
O velório decorria num clima contrastante. Misturava-se o recolhimento do terço e o pranto da carpideira - contratada para exteriorizar, pelo choro e vozearia, a tristeza e pesar pela perda do finado - com a algazarra dos homens que madrugada dentro se empanturravam com saborosas rodelas chouriço, broa e bagaço.
Na senda da tradição e entre outras fontes, recorremos à escassa historiografia paredense, tendo sido na útil e prática obra “Paredes, Jóia do Sousa” que fomos encontrar indicações importantes sobre o tema a que temos vindo a dar atenção.
Desde o anúncio da morte passando pelo velório e até à sepultura dos finados, havia uma série de práticas nem sempre ligadas ao culto religioso e das quais nada resta hoje senão a memória.
Segundo a citada monografia, era como forma de “minorar tristezas e dor” que a comida entrava em cena, para gáudio dos intervenientes: àqueles que na terra anunciavam o triste desenlace era oferecido “batatas e bacalhau”; aos que vestiam o cadáver era dado café e aguardente; aos sacerdotes, bolachas e vinho do Porto; e, particularmente, na freguesia paredense de Lordelo, dava-se pão de trigo e vinho aos “gatos-pingados”[1].
“Os abusos eram tantos que estas práticas começaram a desaparecer. É que todos estavam prontos, sempre, para “ajudar” o falecido, porque a recompensa aumentava o apetite.”[2]
O velório decorria num clima contrastante. Misturava-se o recolhimento do terço e o pranto da carpideira - contratada para exteriorizar, pelo choro e vozearia, a tristeza e pesar pela perda do finado - com a algazarra dos homens que madrugada dentro se empanturravam com saborosas rodelas chouriço, broa e bagaço.
Esta tradição mantinha-se ainda nos anos 30 do século passado, pelo menos, havendo por isso hoje quem, entre a nossa população mais antiga, guarde memória destes rituais.
Continuemos com a transcrição dos assentos:
José da Rocha Pinto, casado com Maria Angélica do lugar do Outeiro de Recarei, desta freguesia de S. Pedro de Sobreira, faleceu da vida presente aos 30/10/1831 e foi sepultado no dia seguinte na Capela de Recarei, de 66 anos mais ou menos, com os sacramentos […], obradou segundo costume da casa, de que fiz este assento, era ut supra. Ofício de corpo presente e 2º e 3º dias com 8 padres. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.
Maria Angélica Nogueira, viúva que ficou de José da Rocha Pinto, do Outeiro de Recarei, 70 anos mais ou menos, faleceu aos 27/04/1833 e foi sepultada no dia seguinte na Capela de Recarei, teve ofício de corpo presente com 8 padres e nos 2º e 3º dias com 10 padres, obradou conforme o costume da casa. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.
António Coelho da Silva, [pai do Pe. Lino José Barbosa da Silva] casado com Custódia Barbosa Leão da Casa do Covo da Costa de Recarei, faleceu aos 22/08/1834 e foi sepultado no dia seguinte na Capela de Recarei, com todos os sacramentos, teve ofício de corpo presente de 8 padres e nos 2º e 3º dias, com os mesmos. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.
José Nogueira Barbosa, solteiro, da Casa do Covo de Recarei [Costa], faleceu no dia 27/07/1836 e foi sepultado no dia seguinte na Capela de Recarei, tinha 36 anos mais ou menos, de que fiz este assento, era ut supra. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.
José, filho de José António Pereira, da Costa de Recarei, faleceu aos 22/06/1837 e foi sepultado na Capela de Recarei. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.
Bernardino da Rocha Pinto, faleceu no lugar do Outeiro de Recarei no dia 05/05/1841, filho de José da Rocha Pinto [o Alferes] e de Ana Jorge da Costa, tendo recebido o sacramento da Extrema-Unção, tão somente por não estar em termos de receber os demais, de idade de 15 anos mais ou menos e foi sepultado no dia 7 do dito mês e ano, na Capela de Recarei, de que fiz este assento, e…
…sua irmã, Rosa Margarida da Costa, faleceu no lugar do Outeiro de Recarei aos 06/05/1841, de idade 14 anos pouco mais ou menos e foi sepultada no dia seguinte, dia 6, [Juntamente com seu irmão?] na Capela de Recarei, tiveram ofício de corpo presente de 8 padres de que fiz este assento. O reitor Joaquim Nogueira Barbosa.
Nota: O Bernardino nasceu a 06/12/1824, tendo portanto 17 anos aquando da morte. A Rosa Margarida nasceu a 24/06/1828, ou seja, tinha 13 anos à data do falecimento.[3]
José da Rocha Pinto, casado com Maria Angélica do lugar do Outeiro de Recarei, desta freguesia de S. Pedro de Sobreira, faleceu da vida presente aos 30/10/1831 e foi sepultado no dia seguinte na Capela de Recarei, de 66 anos mais ou menos, com os sacramentos […], obradou segundo costume da casa, de que fiz este assento, era ut supra. Ofício de corpo presente e 2º e 3º dias com 8 padres. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.
Maria Angélica Nogueira, viúva que ficou de José da Rocha Pinto, do Outeiro de Recarei, 70 anos mais ou menos, faleceu aos 27/04/1833 e foi sepultada no dia seguinte na Capela de Recarei, teve ofício de corpo presente com 8 padres e nos 2º e 3º dias com 10 padres, obradou conforme o costume da casa. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.
António Coelho da Silva, [pai do Pe. Lino José Barbosa da Silva] casado com Custódia Barbosa Leão da Casa do Covo da Costa de Recarei, faleceu aos 22/08/1834 e foi sepultado no dia seguinte na Capela de Recarei, com todos os sacramentos, teve ofício de corpo presente de 8 padres e nos 2º e 3º dias, com os mesmos. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.
José Nogueira Barbosa, solteiro, da Casa do Covo de Recarei [Costa], faleceu no dia 27/07/1836 e foi sepultado no dia seguinte na Capela de Recarei, tinha 36 anos mais ou menos, de que fiz este assento, era ut supra. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.
José, filho de José António Pereira, da Costa de Recarei, faleceu aos 22/06/1837 e foi sepultado na Capela de Recarei. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.
Bernardino da Rocha Pinto, faleceu no lugar do Outeiro de Recarei no dia 05/05/1841, filho de José da Rocha Pinto [o Alferes] e de Ana Jorge da Costa, tendo recebido o sacramento da Extrema-Unção, tão somente por não estar em termos de receber os demais, de idade de 15 anos mais ou menos e foi sepultado no dia 7 do dito mês e ano, na Capela de Recarei, de que fiz este assento, e…
…sua irmã, Rosa Margarida da Costa, faleceu no lugar do Outeiro de Recarei aos 06/05/1841, de idade 14 anos pouco mais ou menos e foi sepultada no dia seguinte, dia 6, [Juntamente com seu irmão?] na Capela de Recarei, tiveram ofício de corpo presente de 8 padres de que fiz este assento. O reitor Joaquim Nogueira Barbosa.
Nota: O Bernardino nasceu a 06/12/1824, tendo portanto 17 anos aquando da morte. A Rosa Margarida nasceu a 24/06/1828, ou seja, tinha 13 anos à data do falecimento.[3]
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[1] Expressão que também designa os homens que transportam o caixão nos cortejos fúnebres.
[2] In “Paredes - Jóia do Sousa”, Dr. Ricardo Pinto e Ivone Torres, Anégia Editores
[3] Anotações de Abel da Rocha Nogueira Júnior.

3 comentários:
Continua excelente o seu blogue, caro sr Ivo. Apreciei particularmente o pormenor "Casa das Figueiras" do Outeiro de Recarei, casa origem dos meus antecedentes paternos, a que, graças ao AD do Porto cheguei ao meu trisavô, José Alves da Rocha, todos da mesma Casa das Figueiras.
Estou a reconstruir a história de minha família e me deparei com a expressão "teve um officio de corpo prezente com 30 padres". Gostaria de saber o que isso significa, pois não consigo vislumbrar que em um pequeno vilarejo, me refiro a Vreia de Jales, na metade do século XIX, pudesse haver 30 padres na dita missa.
Outra coisa: em um assento de óbito, havia a expressão: "não teve officio por razão de ser pobre". Por que? Os padres não acudiam as almas de quem não tinha posses?
Agradeço se puder responder,
att. Adriana Alves (aaloche@gmail.com)
Cara Adriana
A expressão "teve um officio de corpo prezente com 30 padres" significa que terão estado efectivamente 30 sacerdotes nos ofícios fúnebres realizados. Claro que não deviam ser todos da mesma localidade, vinham das paróquias vizinhas ou de congregações religiosas. Convém também dizer que contrariamente ao panorama actual, antigamente os padres eram em muito maior número.
O número de sacerdotes variava consoante as posses da família. Essa e outras disposições muitas vezes ficavam em testamento, e 30 é um número bastante razoável pelo que arriscaria a dizer que esse seu familiar era de muito boa condição económica ou social, ou então era, ele próprio, um clérigo.
A expressão "não teve officio por razão de ser pobre" não deve escandalizá-la. Era mesmo assim. Terá tido uma prática fúnebre mais modesta certamente.
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