29 de Novembro de 2009

Inéditos (XXIV/2009)

Os que dormem na Casa do Senhor (III)

«(…) faleceu da vida presente, serva de Custódia Barbosa Leão, da Casa do Covo de Recarei, e foi sepultada no dia seguinte na Capela de Recarei, na campa de seus servos (…)»

Chegámos ao final deste artigo tripartido onde recordámos alguns dos recaredenses falecidos na primeira metade do século XIX, com a particularidade de terem sido inumados no interior da então pequena ermida de Recarei.
Questionamo-nos hoje, acompanhados certamente por muitos dos nossos leitores, sobre o que terá acontecido aos restos mortais destes recaredenses após a proibição dos enterros nos locais de culto e obrigação de enterramento em cemitérios públicos. Terá havido, entretanto, trasladação das ossadas para o cemitério que como sabemos é contemporâneo da criação da paróquia (1856), ou terão estes permanecido até aos nossos dias sob o chão da actual igreja paroquial de Nossa Sra. do Bom Despacho de Recarei?
Na busca destas e de outras respostas aquando do trabalho de pesquisa para a elaboração da monografia Villa Recaredi (2008), interpelámos um dos responsáveis pelas obras da igreja matriz realizadas entre 1973 e 1976. Relativamente à existência de quaisquer sepulturas, jazigos ou placas tumulares no solo da nave principal foi-nos assegurado que naquela altura “já lá não havia nada”. É natural que não restasse, à vista desarmada, qualquer tipo de evidência sepulcral, até porque as lápides epigrafadas eram uma regalia reservada somente a personalidades notáveis. Os fiéis comuns, que é como quem diz, a esmagadora da maioria dos residentes em Recarei e Sobreira, eram inumados sob os soalhos das igrejas sem direito a qualquer tipo de identificação ou epitáfio.
Não temos também notícia de que tenham ocorrido a posteriori quaisquer actos de trasladação. Nem através de documentos - e cremos que se assim fosse eles deveriam existir - nem por testemunho dos mais antigos.
Recentemente e como é sabido, foram feitas escavações arqueológicas no adro da vizinha igreja paroquial de S. Pedro de Sobreira, freguesia à qual pertenceram os lugares de Recarei até 1855. Não constituiu surpresa, pelo menos para nós, o aparecimento de várias sepulturas identificadas como sendo do séc. XIX. Os livros de registo paroquial são elucidativos neste aspecto, e não só nos dão a identidade e o motivo da morte dos sepultados como também o local da inumação: se dentro, se no altar-mor (padres), ou no adro da igreja, “como pobre”.
As famílias com capacidade financeira para tal, normalmente as dos proprietários das grandes casas de lavoura, adquiriam jazigos no interior. Por outro lado, para os mais pobres, para os indigentes ou para os que faleciam quando já não havia espaço dentro da nave, não havia alternativa senão o enterramento nos terrenos circundantes.
Aqui ficam, para terminar, mais alguns registos de recaredenses sepultados no solo da antiga capela do lugar da Costa:

Joana da Rocha, faleceu a 08/12/1845, faleceu da vida presente, serva de Custódia Barbosa Leão, da Casa do Covo de Recarei, e foi sepultada no dia seguinte na Capela de Recarei, na campa de seus servos, sem o sacramento da Extrema-Unção por falecer de repente de uma paralisia, tinha 70 anos mais ou menos, de que fiz este assento. O pároco Joaquim Moreira Barbosa.

Aos 21/08/1847 faleceu a menor Emília da Cunha, filha de Angelino da Cunha Coelho e de Ermelinda Nogueira, da Casa do Angelino da Lamela de Recarei e foi sepultada na Capela de Recarei. O coadjutor, Pe. Lino José Barbosa da Silva.

Custódia Barbosa Leão,
[mãe do Pe. Lino José Barbosa da Silva]
faleceu aos 13/03/1849, viúva de António Coelho da Silva, do lugar Costa de Recarei, da Casa do Covo, com 73 anos mais ou menos, foi sepultada na Capela de Santa Águeda de Recarei, onde tem campa, no dia 16 do mesmo, obradou ao costume da casa, de que fiz este assento. O reitor Joaquim da Silva Nogueira. Ofício de corpo presente com 16 padres e no 2º e 3º dias com 8 padres cada um.

José Moreira Barbosa, solteiro, do lugar do Outeiro de Recarei, Casa do Toural, faleceu aos 18/08/1849, de 66 anos mais ou menos, com todos os sacramentos, foi sepultado na Capela de Recarei, fez testamento e obradou ao costume da casa: 3 alqueires de milho, mais meia raza de milho em um cesto, 3 cântaros de vinho e um carneiro, de que fiz este assento. O reitor Joaquim da Silva Nogueira. Teve ofício de corpo presente de 7 padres e no 2º e 3º dias com 8 padres cada um.

Maria Martins, solteira, faleceu aos 02/10/1849 de 23 anos, filha de Jerónimo Martins e Maria de Sousa, do lugar de S. Jomil, São Martinho do Campo e foi sepultada no dia seguinte na capela do lugar de Recarei, por falecer em casa de José Luís Pinto de Queirós, da Casa do Covo do lugar da Costa de Recarei, por se achar existente em casa do dito há cousa de um mês e recebeu o sacramento da Penitência, não os mais por não dar tempo, não obradou, de que fiz este assento. O reitor Joaquim da Silva Nogueira.

Belmiro Moreira, menor de 5 anos, faleceu a 01/05/1851, filho de Manuel Marques de Paiva e de Maria Rosa, do lugar do Cabido de Recarei e foi sepultada no dia seguinte na Capela de Recarei. Pe. Joaquim Nogueira Barbosa.

Carolina, com dois meses mais ou menos, faleceu, era filha de Manuel de Sousa e de Ermelinda de Oliveira do lugar de Recarei e foi sepultada no dia seguinte na Capela de Recarei, de que fiz este assento. O coadjutor Pe. Lino José Barbosa da Silva.

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