O Professor Luís das Neves Lobo
"Durante todo o seu percurso de vida foi, reconhecidamente, um benemérito lutador que não se poupara a esforços na batalha contra o analfabetismo, o obscurantismo, e dando sempre o melhor de si em auxílio de todos os que dele necessitavam. Um verdadeiro benfeitor!"
A título introdutório importa referir que a personalidade a quem dedicamos este artigo foi já competentemente estudada e biografada pelo Pe. José da Rocha Ramos. Porém, esse pequeno opúsculo que perpetua no tempo a vida e a obra do ilustre professor Luís das Neves Lobo, não terá chegado ao conhecimento geral da população de Recarei.Procuraremos então, aqui, dar eco das informações biográficas mais relevantes da personalidade em causa, ou não estivéssemos nós ante um dos poucos recaredenses que alcançaram notoriedade fora da sua terra natal.
Luís das Neves Lobo, filho de António José Barbosa e de Ana Lopes das Neves Lobo, nasceu no lugar da Costa, Recarei, a 4 de Dezembro de 1850. Era neto paterno de Joaquim Barbosa e Rosa Joaquina, residentes no lugar de Avinhó, Irivo, Penafiel, e neto materno de António da Fonseca Lobo e Maria Lopes das Neves, naturais da freguesia de S. Mamede de Valongo.[1]
Na sua numerosa família que, diga-se, gozava de grande prestígio e respeito nas redondezas, houve vários sacerdotes e professores. O seu irmão, Pe. Joaquim das Neves Lobo, por exemplo, até foi as duas coisas. Além de exercer o ministério sacerdotal foi professor oficial de instrução primária na década de 80 do séc. XIX.
Os clérigos recaredenses José das Neves Lobo que foi pároco de Lufrei, Amarante, e José Moreira das Neves Lobo que foi pároco de Magrelos, Cete e Sobrado, eram seus sobrinhos. O primeiro era filho do seu irmão Carlos das Neves Lobo, professor, e o segundo, da sua irmã Maria Rosa das Neves Lobo, padeira.
Luís Lobo nasceu e cresceu no lugar da Costa de Recarei, onde recebera a primeira instrução escolar, até que mudou de ares prosseguindo os seus estudos académicos na Escola Normal do Porto. Casou a 9 de Novembro de 1872 com Clementina Rosa das Neves, senhora oriunda de uma influente e abastada família da localidade de Covelo, concelho de Gondomar.
Do seu casamento nasceram oito filhos, quase todos eles com interessantes referências e curiosidades biográficas a assinalar, senão vejamos:
- Adelina das Neves Lobo, que seguindo as pisadas do pai, foi professora primária.
- Adélia das Neves Lobo, que foi também professora primária em Cete, Paredes, onde viveu muitos anos e onde acabaria por falecer.
- Adélio das Neves Lobo, falecido nos anos 30 do séc. XX, que foi durante vários anos chefe da estação ferroviária de Campanhã, na cidade do Porto.
- Adelino das Neves Lobo, que emigrou para o Brasil onde viria a falecer.
- Maria Isménia das Neves Lobo, falecida no ano de 1965.
- Palmira das Neves Lobo, conhecida «endireita» de Covelo, uma arte herdada de seu pai como veremos adiante. Chegou a sentar-se no banco dos réus mas foi ilibada por exercer essa actividade de forma gratuita.
- Virgínia das Neves Lobo, que casou com Rosendo Fernandes dos Santos, professor primário que leccionou em Cete, Fonte Arcada, Penafiel e Gondomar.
- Hermínia Augusta das Neves Lobo. Não era a mais nova, mas deixámo-la propositadamente para o fim porque sobre si há uma interessante ligação genealógica que queremos aqui evidenciar.
Nascida e criada em Covelo, a D. Hermínia Lobo veio a casar no dia 25 de Maio de 1907 na igreja do Bonfim, Porto, com Nicolau Moreira Lopes, um conterrâneo de seu pai. Este Nicolau Lopes era filho de António Moreira Júnior e de Rosa de Sousa Dias, e havia nascido no lugar da Costa, Recarei, na véspera de Santa Águeda, a 4 de Fevereiro de 1886[2].
O casal teve pelo menos dois filhos. Um deles, José Moreira Lopes[3], que era conhecido como “Zeca Professor” não por exercer essa função mas por ser da família de Luís Lobo, nasceu a 5 de Março de 1917 e faleceu a 30 de Abril de 1994, em Covelo, onde está sepultado. O outro filho, provavelmente o primogénito, herdou o nome do pai – Nicolau – uma tradição que este último decidiria também manter.
Nicolau Moreira Lopes nasceu em Covelo, no dia 10 de Outubro de 1911. Com 13 anos de idade entrou para a Congregação Missionária do Espírito Santo, em Viana do Castelo. Fez a solene “Tomada de Hábito” a 16 de Janeiro de 1928, em Braga. Frequentou o noviciado em Orly, França, de 1 de Setembro de 1930 a 8 de Setembro de 1931, data em que professou os Primeiros Votos. Posteriormente, foi estudar para o Colégio Português de Roma, em Itália, onde se formou em cânones. Há a notícia de que em 1932, como representante desse mesmo colégio, marcou presença na cerimónia da sagração episcopal de D. Moisés Alves de Pinho, também Espiritano, celebrada em Viana do Castelo. Não chegou a fazer os votos perpétuos interrompendo o caminho que o poderia ter levado ao sacerdócio. Abandonou, assim, os estudos eclesiásticos acabando por se formar em Letras pela Universidade de Lisboa.
O então já doutor Nicolau Moreira Lopes veio a casar, no dia 28 de Agosto de 1939, com Augusta de Araújo Pereira de Mello Breyner, na localidade alentejana de Serpa, distrito de Beja, para onde foi viver. Dessa união nasceu João Nicolau de Mello Breyner Moreira Lopes – abreviando, Nicolau Breyner – conhecido actor, apresentador de televisão e realizador de cinema que o povo português se habituou a ver no pequeno ecrã. Eis, portanto, a revelação da curiosidade: Nicolau Breyner é de ascendência recaredense. Nicolau Moreira Lopes, seu avô paterno, era natural de Recarei, e a sua avó paterna, Hermínia Augusta das Neves Lobo, era filha de Luís das Neves Lobo, também recaredense.
E porque não é este o motivo que nos leva a escrever esta crónica mas sim a valorosa vida e obra do Professor Luís Lobo, continuemos a debruçar-nos sobre os seus factos biográficos mais relevantes.
Quando após o casamento chegou à localidade gondomarense de Covelo, o professor encontrara uma aldeia sem acessos condignos, sem fontenários públicos e sem qualquer edifício escolar com o mínimo de condições exigíveis e necessárias ao ensino.
Tomou então a seu cargo várias iniciativas no sentido de resolver, primeiramente, o problema da escola. Fez questão de repetir várias vezes à Junta de Freguesia que o local onde até então se ensinava a ler e a escrever, não respondia às necessidades e que se impunha a compra de um terreno para edificação de casa própria.
Passaram-se os anos e as respostas positivas da autarquia não saíam do papel. Como forma de angariar fundos para a construção do edifício, o professor bem propôs a venda ou aluguer dos terrenos baldios, que por essa altura abundavam em Covelo, mas tudo isto em vão, pois nada continuava a ser feito.
E se o tão desejado novo edifício escolar não via a luz do dia, a velha sala de aula até a escassa luz que tinha deixar-se-ia de ver. Por azar, e como se já não bastasse o facto de chover em cima das escrivaninhas, o proprietário do terreno contíguo decidira plantar uma ramada mesmo em frente às janelas, o que veio retirar o calor dos raios de sol e a luminosidade necessária aos trabalhos lectivos.
Cansado de esperar Luís Lobo ofereceu ele próprio um dos seus terrenos, e que segundo o Administrador e Delegado de Saúde reunia todas as condições para que se erguesse ali, finalmente, a tão desejada escola. Ainda assim o projecto teimava em não arrancar.
Num gesto de desespero o professor escrevera novamente à Junta de Freguesia na pessoa do seu presidente. Partindo da transcrição desse documento feita na íntegra pelo Pe. Rocha Ramos na obra biográfica dedicada ao ilustre professor, extraímos o seguinte e elucidativo parágrafo:
Vossa Senhoria não atendeu. Hoje, porém, cumpre-me declarar-lhe que, por causa disto, está a freguesia sofrendo graves prejuízos, porque a mobília daqui a pouco estará podre por causa da chuva; os quadros de leitura, tão necessários para o ensino e que custaram quatro mil reis, estão completamente abandonados, porque, não tendo a janela vidros, estando a parede cheia de buracos, e não tendo a porta chave, o vento os tem precipitado à rua, e estão todos sujos e rotos, e alguns feitos em pedaços. Não menores têm sido os prejuízos meus e dos pais dos alunos, porque a chuva que cai em todos os pontos da sala tem estragado um grande número de livros e mais papeis, o que grande falta faz aos desgraçados que nem ao menos têm pão para comer![4]
Não atendida a sua súplica, uma vez mais, o professor não se resignara à situação, oferecendo para o desejado fim um quarto de sua casa. E foi ali mesmo, na casa sita no largo que hoje tem o nome, precisamente, de Luís Lobo, que durante cerca de três décadas várias gerações de crianças covelenses aprenderam a ler e a escrever.
Recusando cruzar os braços ante os obstáculos que lhe iam surgindo pelo caminho, e até porque segundo José da Rocha Ramos “não lho consentia a sua índole guerreira e o seu carácter de intrépido lutador”[5], o Prof. Luís Lobo reivindicou toda a vida como pôde, não só a construção de um edifício próprio para o ensino como também o atendimento das mais diversas necessidades sentidas por aquela povoação tristemente abandonada. Disso é apenas um exemplo o seu empenho na criação de fontenários para abastecimento público, no sentido de atenuar a insalubridade causada pela ingestão das águas estagnadas dos poços e ribeiros então existentes.
O «Senhor Professor» era também um homem dedicado à cultura, à música, à poesia e que dava especial atenção aos costumes e práticas dos antepassados. Foi responsável pela criação do primeiro grupo coral de que há memória na localidade, e juntamente com o seu irmão, Carlos das Neves Lobo, regeu a banda de música que existiu outrora naquela freguesia.
Apesar de ter feito parte da Junta de Freguesia ainda em pleno período monárquico, Luís Lobo era um republicano convicto e militante. Esteve inclusive entre os três covelenses que num período mais ou menos conturbado foram alvo de um mandato de captura. Uma doença grave fê-lo no entanto escapar da detenção e do cárcere. Consta que enquanto a guarda levava um dos companheiros de seu pai, uma das filhas de Luís Lobo gritara:
- Ó Esteves, vão-se os bons e ficam os maus!
Um dos guardas respondeu:
- Cala-te senão também vais![6]
Não obstante o que já foi escrito a propósito dos méritos sociais do insigne professor, importa ainda dizer que o mesmo se notabilizara também pela habilidade na cura dos mais diversos tipos de maleitas físicas. Era o endireita ou «cirurgião-curandeiro» das redondezas, um dom que a sua filha Palmira viria a herdar.
Durante todo o seu percurso de vida foi, reconhecidamente, um benemérito lutador que não se poupara a esforços na batalha contra o analfabetismo, o obscurantismo, e dando sempre o melhor de si em auxílio de todos os que dele necessitavam. Um verdadeiro benfeitor!
Luís das Neves Lobo faleceu no dia 18 de Novembro de 1925. No dia seguinte, uma multidão de gente como nunca se vira por aquelas bandas marcou presença no seu funeral – o maior daquele tempo –, um factor só por si denotativo da popularidade e do enorme carinho que o povo por ele nutria.
Felizmente, graças aos estudos elaborados pelo já por nós citado Pe. José da Rocha Ramos, ficara perpetuada na nossa historiografia a notável figura de Luís das Neves Lobo. Recorrer a tais escritos permite-nos hoje trazer novamente a público o seu percurso de vida e os seus incontestáveis méritos, não só para memória futura da terra que o acolheu, como também, agora, da que o viu nascer.
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[1] - Cf. Livro de Registos de Baptismo da Paróquia de S. Pedro da Sobreira, f. 82.
[2] - Cf. Livro de registos de baptismo da paróquia de Recarei, 1886.
[3] - Na sua lápide tumular no cemitério de Covelo consta o sobrenome “Lobo”.
[4] - RAMOS, Pe. José da Rocha. Luís das Neves Lobo: sua vida e obra. Covelo, 1991.
[5] - Idem.
[6] - RAMOS, Pe. José da Rocha. Covelo, ontem e hoje. Porto, 1996.

1 comentários:
Chamo-me Luís Filipe Peniz Parreira Lobo e sou bisneto de Luís das Neves Lobo. Começo por agradecer as palavras elogiosas e, por certo merecidas, com que se refere ao meu bisavô, que me proporcionam um melhor conhecimento da família. Tomo, no entanto, a liberdade de o informar que o meu bisavô teve quatro filhos e não dois. LUÍS ANTÓNIO DAS NEVES LOBO, NICOLAU MOREIRA LOPES, SILVINO MOREIRA LOPES E JOSÉ MOREIRA LOPES (ZECA).
O filho Luís António das Neves Lobo, de quem sou filho, acompanhou o seu irmão Nicolau para Serpa onde ambos foram leccionar no Colégio de Nossa Senhora da Guadalupe, fechado há muito. Meu pai, Luís Lobo, casou com Ana Isabel Peniz Parreira Cortez, natural de Serpa, filha de uma família de grandes agricultores, residente na Herdade da Retorta.
Meu tio Silvino, emigrou para o Brasil, no final da década de 40, de onde, após cerca de 10 anos, deixou de dar notícias, supondo-se que tenha lá falecido.
E pronto, meu amigo, é tudo.
Grato por tudo,
Atenciosamente Luís Filipe Peniz Parreira Lobo
penizlobo@gmail.com
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